Boletim Meridional

Defender e produzir ciência no Brasil hodierno é um ato de cidadania

Todo indivíduo que decide trilhar a carreira de pesquisador no Brasil — e em outras partes do mundo — termina se acostumando com os inquéritos referentes à aplicação e utilidade efetiva dos recursos que seu trabalho produz.  Na esfera das ciências humanas, essas dúvidas sobrevêm com regularidade ainda maior devido ao fato de que as apreciações técnicas não oferecem, em geral, resultados instantâneos e propícios a serem quantificados pelas medidas que a sociedade pós-moderna determina através do consumismo hiperbólico que os parâmetros mercantis estabelecem. Não obstante, examinar a reprodução de partículas virais ou de células biológicas a fim de confeccionar um novo medicamento, por exemplo, vem sofrendo com a mesma ojeriza popular que já incide há décadas nas perspectivas literárias que integram os renques da comunicação social do país. A razão disso é encontrada nas propagandas negativas que os setores empresariais realizam com uma ambição tenebrosa. As elites brasileiras jamais nutriram simpatia pelos ensaios científicos que não se transformam...
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Mesmo sob escombros, a vida continua…

Assim como em ocasiões passadas, meus longos textos plurais e de termos insólitos certamente fariam sentido hoje. Mas é extremamente difícil elaborar uma análise sobre qualquer panorama com os olhos marejados devido à consternação que o fluxo de reminiscências acarreta quando um ente bastante querido submerge no irremeável pélago da morte. Necessito sobrepujar a arte da perda e, depois do luto exercido, terei condições mínimas de ortografar novamente. Das mais intrínsecas camadas do meu ser, agradeço por toda gentileza e candura que a senhora me ofereceu, vovó Maria Bernadete. Pude me tornar adulto e ultrapassar a barreira dos trinta anos de idade com sua presença e seus conselhos (e sermões por eu não ter me barbeado). Jamais me esquecerei do amor que tanto senti desde criança pela minha avó nascida em 1927 na histórica cidade de Ouro Preto e falecida anteontem. Meu coração sangra em cinzas ao invés do vermelho neste momento....
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O paradoxo dos que ainda confundem ateísmo com religião

É incontestavelmente notório que o ano de 2020, findado há quatro semanas, foi demasiadamente insólito. O teratismo patogênico que segue mortificando o exórdio da terceira década do Século XXI fez com que perguntas do tipo "de onde você tira forças para manter a serenidade?" e "o que te faz achar que haverá um futuro melhor diante de tantas complicações?" fossem periodicamente remetidas a mim. Contudo, nenhuma ultrapassa àquela que leio e ouço desde a pré-adolescência e que foi exponencialmente amplificada pelo desastre sindêmico (e também pelas festividades de encerramento anual provenientes do cristianismo): "Qual é a sua crença?" A razão para tantas interrogações é, obviamente, em virtude do meu ateísmo espontaneamente ingênito. Uma sociedade extremamente habituada às superstições que forjaram o medo do desconhecido sempre é acometida pelo estarrecimento quando um de seus integrantes declara não possuir fé em aspectos hieráticos. Não obstante às reações frígidas — e até mesmo hostis — dos brasileiros perante ao meu ceticismo, o...
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A humanidade não tem salvação longe da ciência

Por mais incrível que pareça, o afluente de convulsões que viabilizaram maneiras do patógeno SARS-CoV-2 acabar se transformando em uma depressão sindêmica de proporções globais também resultou em uma compreensão indubitavelmente maior daquilo que a ciência representa, bem como fez regressar o otimismo e a insuspeição de diversos cidadãos nas análises e pesquisas técnicas. Isso é absolutamente esplêndido pois, ao contrário das verdades que não toleram contestações porque utilizam a famigerada “vontade divina” como justificativa, o argumento científico ratifica que não detém controle sobre o monopólio da perfeição ontológica. A ciência jamais escondeu que suas teses possuem o espírito do tempo como substância primária e que tais conceitos devem ser verificados com frequência no intuito de se adaptarem às épocas ulteriores. É preciso frisar que a ciência não é elaborada de modo individual, dado que nenhum pesquisador desenvolve qualquer material de forma isolada. Ele simplesmente adiciona uma engrenagem no ilimitado sistema da metodologia científica. Diferentemente dos sermões avaliados como leis...
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D de Displicência, H de Hecatombe

Mesmo que já tenhamos alcançado a segunda metade de janeiro — e peço sinceras desculpas aos leitores em função de minha ausência entre o ocaso do último mês e o início deste —, as expectativas concernentes a 2021 seguem no mais elevado patamar. Isso é, certamente, um traço daquela mística que os indivíduos fabricam no intuito de glorificar a passagem de ano. Nada obstante, uma aberração também cruzou o período de 2020 a fim de continuar depredando os resquícios de ordem que a sociedade brasileira tenta manter. Ou melhor, as aberrações em evidência são duas: Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello. Já era totalmente intragável e visivelmente letal permitir que o misólogo hospedado no Palácio da Alvorada ficasse propagando uma série de tolices referentes ao Sars-CoV-2, o que inclui as “terapias precoces” mediante o uso indiscriminado de antimaláricos e medicamentos veterinários — que terminarão imunizando as bactérias nos esgotos e potencializando seu ímpeto contra o ser humano —; saturação...
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A segunda onda do morticínio virológico não é uma peça de teatro

Em uma sociedade expugnada pela ótica do consumo e da propaganda, a morte de celebridades que pertencem a essa linha da corrente dominante emocionam o povo sem a menor objeção. Seus decessos acabam convertidos instantaneamente em uma série de reportagens por emissoras de radioteledifusão; páginas eletrônicas e jornais da grande mídia, acarretando uma enxurrada de depoimentos comoventes de outros famosos e instigando as pessoas comuns a refletirem sobre o ocorrido. Tal asserção foi materializada nesta e na semana anterior com o falecimento de atores do prefixo ZYB 511; do vocalista da banda Roupa Nova e do percussionista de repique de mão do conjunto Fundo de Quintal. Todos vitimados pelo Sars-CoV-2. Essas três figuras são os primeiros casos de artistas que vieram a óbito por COVID-19 de modo subsequente na atual fase da pestilência, isto é, a segunda onda que a corja de mentecaptos irresponsáveis segue negando por horror às evidências científicas que pulverizam qualquer opinião superficial; utópica e/ou...
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Misologia, ou “Revolta da vacina no Século XXI” (segunda parte)

As eventualidades contemporâneas mundo afora já ilustram claramente que não existem locais invulneráveis ao flagelo desta crise triangular, isso porque o surto do COVID-19 expugnou todos os continentes e, somado à problemática do aquecimento global, dissolveu os paradigmas que resguardavam —com extremo sacrifício — o funcionamento da economia, sobretudo a ocidental. Todavia, o que possibilita um contraste tão macabro no Brasil é a displicência da quadrilha bolsonarista para com estas questões. Na Eurásia, o objetivo comum das nações tem sido refranger seus habitantes através de deliberações políticas com altíssimo enfoque na manutenção da saúde pública. Já nas glebas da antiga Ilha da Vera Cruz, o Ministério da Saúde apresenta um “plano de vacinação que deve ser executado em quatro etapas”. Pelo menos foram decentes ao etiquetá-lo como preambular, haja vista que não informa a respeito dos procedimentos logísticos atinentes ao oferecimento das doses. Eduardo Pazuello, emissário da pasta e versado em logística pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN),...
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Misologia, ou “Revolta da vacina no Século XXI” (primeira parte)

Há cento e dezesseis anos, quando o município do Rio de Janeiro era a capital da República Brasileira, a nação enfrentava turbulências sociopolíticas ainda menos decifráveis que as do momento presente. Essa gama de adversidades ocasionou a histórica Revolta da Vacina, que irrompeu nas camadas populares em oposição às reformas urbanas e, logicamente, às medidas sanitárias de imunização e profilaxia. Naquela época, onde Francisco de Paula Rodrigues Alves era o Chefe de Estado e de Governo do Brasil — e que retornaria ao Palácio do Catete em 1918 se o morbo da Gripe Espanhola não tivesse liquidado sua vida —, a sociedade julgava que as campanhas de vacinação pretendiam envenenar os cidadãos. Esse desatino fomentou uma microguerra civil, traduzida em dezenas de mortos; centenas de feridos e quase mil detentos fracionados em um grupo enclausurado na Ilha das Cobras e em outro banido para o Acre, oficialmente convertido em território nacional oito meses antes. Em 2020, percebe-se o contrário:...
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A autenticidade do voto nulo e as falácias dos indulgentes

Conforme o tempo avança na dimensão em que o Brasil se encontra, o produto que a realidade social imprime nas minhas perspectivas é uma incredulidade sólida em atos meramente eleitoreiros. Tamanho ceticismo é incrementado justamente em períodos sufragistas, onde a demagogia infesta uma gama de círculos (aparentemente) impolutos. Logo, todo esse artificialismo rotulado como “democracia” evapora instantaneamente quando alguém se posiciona dessa maneira, visto que os fanáticos recorrem à hostilidade para desmerecer aqueles que externam um juízo de valores opostos às crendices deles. Certamente não sou o único que já escutou o seguinte disparate: “quem anula o voto é obrigado a aceitar tudo o que acontece sem reclamar!” Sim, afirmei e reitero que essa frase é um hebetismo, pois a coerência é um fator inexistente em suas premissas. Vejamos, se abomino a conduta de uma horda de facínoras intitulados como “governantes”, por quais razões devo conferir legalidade aos estratagemas destes que violam o bem comum? A partir do momento em que...
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O regresso da infeliz normalidade da política brasileira

Após um processo eleitoral, a busca por motivos capazes de ilustrar o resultado das urnas de maneira plausível é uma reação absolutamente normal. Essa tarefa apresenta uma proficuidade maior quando não há imediatismos transfigurados em comparações voláteis. Um exemplo é a utilização dos números de sufrágios passados no intuito de hipotetizar os nomes dos virtuais campeões da próxima disputa de cargos nos vértices do Executivo e do Legislativo. Isto posto, a missão de decifrar as mensagens remetidas pelos cidadãos torna-se uma atividade positivamente construtiva. O primeiro turno das eleições municipais de 2020 reproduziram um foro popular altamente distinto da horda que tolheu a sociopolítica nacional vinte e cinco meses atrás. É verdade que o povo brasileiro segue imerso em um maremoto de fúria contra uma gama de simulacros da esquerda justapostos meramente sobre o petismo no singular e com todos os elementos que constituem a politicagem demagógica que estraçalha o Brasil no plural. Havia razões suficientes — e continuam existindo...
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