Cinematógrafo

Mary Shelley

É surpreendente o quão é desconhecido, pra muita gente, o verdadeiro criador da história de Frankenstein. Ok, então vamos logo começar por dizer que, de fato, se trata de uma CRIADORA. Coisa rara para a época, uma vez que as casas de edição priorizavam autores homens. Portanto, ainda que houvesse uma pá de mulheres escritoras, ser “publicada” era tarefa quase impossível, ainda mais para o gênero literário de Mary Shelley. [caption id="attachment_82595" align="alignleft" width="300"] Elle Fanning, como Mary Shelley[/caption] O filme narra, portanto, um curto e intenso período da vida da autora, ainda adolescente e às vésperas de conhecer o poeta Percy Shelley, com quem teve uma relação aberta e “escandalosa”, aos olhos da sociedade inglesa desse período, uma vez que ele já era casado com uma outra mulher. Com uma vivência boêmia e cercada de nomes como Lord Byron, Mary foi acumulando experiências e, especialmente após a perda da primeira filha com Percy, a escritora entrou em um período difícil...
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A Fantastic Woman

Confesso que, antes mesmo do Oscar, já andava ouvindo um certo zunzunzum acerca desse filme e, portanto, já tem um tempo que andava em cólicas para vê-lo. Ok. Desejo saciado e vamos ao que interessa. A obra chilena traz como personagem principal Marina Vidal (Daniela Vega), uma mulher trans que, pra se manter, faz alguns bicos como cantora de bar e garçonete. No entanto, Marina tem uma voz incrível e sonha em ser uma cantora lírica. A trama central, porém, não repousa sobre esses aspectos, mas sobre o fato de Marina ter um relacionamento com Orlando, um homem mais velho. E, tudo vai bem até que Orlando passa muito mal e acaba falecendo. É aí que o conflito realmente toma forma, afinal, entra em cena a “tradicional família” do falecido, exigindo carro, apartamento, cachorro. A real é que se trata de uma obra cheia de detalhes e que, se você realmente não prestar muita atenção (tanto à história como à...
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America

America é um documentário no qual a câmera interroga e coloca em evidência os principais aspectos que saltam aos olhos do diretor Claus Drexel. Ou seja, Arizona, cowboys, miséria, armas, misturas de ignorância com sabedoria popular, xenofobia e, o mais importante: tudo isso acontecendo durante as últimas eleições presidenciais dos EUA. Entremeando depoimentos com imagens de carcaças de carros, casas e pessoas, o que fica em evidência são os pontos em comum entre estes: aridez e abandono. Quando Trump foi eleito presidente, muita gente foi pega de surpresa. Inclusive esta que vos fala. Mas a verdade é que essa surpresa é diretamente proporcional à nossa falta de conhecimento em relação às “entranhas” dos Estados Unidos; em relação ao que sobrou do “velho sonho americano”. O diretor conseguiu, com uma certa poesia, retratar o saldo da conta deixada por anos e mais anos de políticas governamentais completamente falhas. Dos esforços de guerra de Bush às reformas da saúde de Obama, as...
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Fevereiros

Semana passada terminou a edição 2018 do Festival de Cinema Brasileiro de Paris e, encerrando o evento, vi o último filme dirigido pelo realizador Marcio Debellian. “Fevereiros” é um documentário que traz como figura central Maria Bethânia. Na verdade, uma Maria Bethânia que, através de suas idiossincrasias, representa nessa obra, o próprio Brasil. Um Brasil mestiço, pagão, religioso, profano, musical. Um Brasil, portanto, de contrastes. Apesar de ser extremamente suspeita pra falar desse assunto – pois AMO Maria Bethânia – penso que o mais interessante a cerca desse documentário foi justamente utilizar uma das artistas brasileiras mais conhecidas no cenário nacional e mundial pra “representar” algumas cores de um país que, pelo menos pra mim, andavam um tanto quanto desbotadas e, até mesmo, esquecidas. A verdade é que, em meio à pantomima política na qual o Brasil se encontra, meio que havia esquecido como o meu país é realmente belo. E isso, o filme de Debellian soube captar, se não com...
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Mr Gay Syria

Confesso que vivo às voltas com indagações mil acerca das “fronteiras” entre documentário e ficção. O pior disso tudo é que nem sei até que ponto se trata de um questionamento realmente válido, uma vez que todo documentário traz sempre consigo doses de “mise-en-scène”. Acabei vendo ontem o filme da diretora Ayse Toprak, o qual usa como base a escolha de um representante sírio para o evento Mr Gay Mundo. Só com esse ponto de partida, você pode preparar um arsenal de perguntas e linhas de abordagem para essa narrativa. Primeiro, depois de anos em guerra e conflitos, como a população LGBTQI de refugiados sírios é vista ou mesmo aceita pelos seus compatriotas e pelos países que os acolhem. Segundo, como escolher uma meia dúzia de personagens para representar a realidade de refugiados LGBTQI, por exemplo, na Turquia ou mesmo na Alemanha? Terceiro, o que um documentário como este pode agregar para a luta de milhares de pessoas que...
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Allure

Sem saber ABSOLUTAMENTE nada sobre a trama, assisti à “Allure”, filme de 2017 dirigido pelos, até então desconhecidos pra mim, Carlos e Jason Sanchez e que traz no elenco, entre outros, Evan Rachel Wood ("Aos Treze", "Across the Universe", "True Blood") e Denis O'Hare ("When We Rise", "American Horror Story", "The Good Wife"). Laura trabalha meio-período no escritório do seu pai e meio-período como diarista. E é justamente limpando uma casa que ela conhece Eva, adolescente de 16 anos com quem, imediatamente, ela se identifica. Eva, por sua vez, vive num ambiente sufocante e tem os dias definidos pela mãe controladora. Um belo dia, Eva, não aguentando mais a pressão, decide fugir de casa e pede ajuda à Laura. As duas passam então a meio que morar juntas, ainda mais depois que a polícia – que investigava o desaparecimento de Eva – decide que é “apenas” um caso de fuga e encerra as buscas pela garota. Quanto à Laura, desde...
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Les Garçons Sauvages (The Wild Boys)

Poucas coisas me dão mais prazer do que ir ao cinema e assistir a um filme que não cabe em apenas um gênero cinematográfico. “Les garçons sauvages” (The Wild Boys) do diretor Bertrand Mandico conseguiu isso, fácil, fácil. Cinco rapazes são condenados a uma espécie de isolamento numa ilha, após violentarem e assassinarem a professora de teatro da escola. Para chegar à tal ilha, eles pegam um barco e, sob o comando de um homem a quem eles chamam apenas de “capitão”, sofrem - o que a gente costuma chamar - “o pão que o diabo amassou”. Chegando ao destino, eles percebem que não se trata de um lugar comum e lá, os cinco rapazes têm as vidas mudadas pra sempre. Isso é um resumo, acredito, bem “didático” do que se passa nesse filme. Porém, o importante não é apenas saber o que acontece, mas como esses eventos tomam forma. Após chegarem à ilha, os rapazes vão percebendo que não se...
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The smell of us

Depois de filmes como “Kids” e “Ken Park”, meio que perdi de vista as obras do diretor Larry Clark. E, não fosse o intimista, mas extremamente interessante festival “Rebel Rebel” acontecendo do ladinho da faculdade, confesso que esse cenário não teria mudado. Sobre o tal evento, dois pontos pertinentes (ao menos, pra mim): primeiro, a master-class com o próprio Clark e, em segundo, a exibição da “versão do diretor” de The smell of us. [caption id="attachment_76824" align="alignleft" width="300"] Larry Clark (Festival Rebel Rebel, Saint-Denis)[/caption] Quanto à master-class, foi tarefa difícil segurar o riso enquanto o animador do evento (um pesquisador do célebre Cahiers du Cinèma) tentava, à duras penas, criar pontes entre suas análises dos filmes de Clark e o próprio realizador. Apenas para ilustrar: o animador fez uma comparação entre o personagem principal de “Kids” (Telly) e a imagem cinematográfica da figura do vampiro. Ou seja, o elemento marginal que, além de sugar o sangue e a vida, macula tudo...
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Darkest Hour

Tarefa fácil me fazer ir ao cinema (mesmo embaixo de neve!). Ainda mais quando o filme fala sobre Segunda Guerra e traz no elenco nomes como Gary Oldman e Kristin Scott Thomas. Ambientado em Londres, a trama narra os bastidores da entrada inglesa no conflito mundial. Mais precisamente, o período em que Churchill (Oldman) assume o cargo de Primeiro Ministro em meio ao caos, a desconfiança e a estabelecida tendência britânica em fingir que nada estava acontecendo (ou seja, Hitler tomando a Europa toda). Óbvio que estamos falando de um filme blockbuster. Logo, temos um verdadeiro desfile de discursos grandiloquentes e a tentativa (eficaz) de transformar a figura de Churchill em uma espécie de super-herói excêntrico, mas brilhante. Resultado? Empatia e identificação quase que imediatas entre personagem e público e, no cinema, isso é meio caminho andado pra um filme fazer sucesso. Aliás, basta ver a quantidade de prêmios aos quais “Darkest Hour” está indicado. E, falando em prêmios, acho muito...
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The Killing of a Sacred Deer

Já tem um tempo que venho “estocando” filmes do diretor grego Yorgos Lanthimos. Dessa vez, resolvi parar com a mesquinharia e assistir à sua mais recente obra... Ainda bem! Eu poderia resumir a trama central usando uma passagem da mitologia grega; aquela de quando Artemis, após ser ofendida por Agamemnon, exigiu que o sujeito se retratasse matando a própria filha, Ifigênia. Em outras palavras, com essa exigência, a deusa fez com que Agamemnon se responsabilizasse pelos seus atos e, mais importante ainda (pra ela, ao menos), “pagasse” um preço de acordo com o agravo. Guardando essa mesma premissa, o filme de Lanthimos nos coloca no meio de relações humanas estranhas, mas retratadas da maneira mais prosaica possível. Entre diálogos sutis e (aparentemente) desimportantes, o filme narra o desenvolvimento da relação de um médico e sua família com um adolescente que, na melhor das hipóteses, dá calafrios se você prestar um pouquinho de atenção às pistas deixadas pelo meio de um...
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