Cinematógrafo

Ocean’s 8

Com esse filme eu fiz o que quase nunca faço com nenhum outro: vi o trailer. Portanto, fui ao cinema sem grandes expectativas. Felizmente, pois ao contrário do primeiro volume da versão “masculina” da franquia (engraçada, inteligente), este deixou um certo cheiro de “condescendência” no ar. Explico. A impressão que ficou é a de que os produtores souberam aproveitar bem a “onda feminista” atual em Hollywood para fazer uma grana extra. Não me entendam errado, pois acho incrível ter, no mesmo elenco, atrizes do gabarito de Cate Blanchett, Sandra Bullock, Helena Bonham Carter, Sarah Paulson e Anne Hathaway. Porém, me incomodou o fato de que, no final das contas, não há realmente uma história. Ou ainda, há uma ideia de trama, mas a qual, definitivamente, está longe de ser bem contada (mesmo pra um blockbuster). Tudo começa quando Debbie (Sandra Bullock), irmã de Danny Ocean (George Clooney, em “11 Homens e um Segredo”) sai da cadeia já com um super...
Leia mais

Mary Shelley

É surpreendente o quão é desconhecido, pra muita gente, o verdadeiro criador da história de Frankenstein. Ok, então vamos logo começar por dizer que, de fato, se trata de uma CRIADORA. Coisa rara para a época, uma vez que as casas de edição priorizavam autores homens. Portanto, ainda que houvesse uma pá de mulheres escritoras, ser “publicada” era tarefa quase impossível, ainda mais para o gênero literário de Mary Shelley. [caption id="attachment_82595" align="alignleft" width="300"] Elle Fanning, como Mary Shelley[/caption] O filme narra, portanto, um curto e intenso período da vida da autora, ainda adolescente e às vésperas de conhecer o poeta Percy Shelley, com quem teve uma relação aberta e “escandalosa”, aos olhos da sociedade inglesa desse período, uma vez que ele já era casado com uma outra mulher. Com uma vivência boêmia e cercada de nomes como Lord Byron, Mary foi acumulando experiências e, especialmente após a perda da primeira filha com Percy, a escritora entrou em um período difícil...
Leia mais

A Fantastic Woman

Confesso que, antes mesmo do Oscar, já andava ouvindo um certo zunzunzum acerca desse filme e, portanto, já tem um tempo que andava em cólicas para vê-lo. Ok. Desejo saciado e vamos ao que interessa. A obra chilena traz como personagem principal Marina Vidal (Daniela Vega), uma mulher trans que, pra se manter, faz alguns bicos como cantora de bar e garçonete. No entanto, Marina tem uma voz incrível e sonha em ser uma cantora lírica. A trama central, porém, não repousa sobre esses aspectos, mas sobre o fato de Marina ter um relacionamento com Orlando, um homem mais velho. E, tudo vai bem até que Orlando passa muito mal e acaba falecendo. É aí que o conflito realmente toma forma, afinal, entra em cena a “tradicional família” do falecido, exigindo carro, apartamento, cachorro. A real é que se trata de uma obra cheia de detalhes e que, se você realmente não prestar muita atenção (tanto à história como à...
Leia mais

America

America é um documentário no qual a câmera interroga e coloca em evidência os principais aspectos que saltam aos olhos do diretor Claus Drexel. Ou seja, Arizona, cowboys, miséria, armas, misturas de ignorância com sabedoria popular, xenofobia e, o mais importante: tudo isso acontecendo durante as últimas eleições presidenciais dos EUA. Entremeando depoimentos com imagens de carcaças de carros, casas e pessoas, o que fica em evidência são os pontos em comum entre estes: aridez e abandono. Quando Trump foi eleito presidente, muita gente foi pega de surpresa. Inclusive esta que vos fala. Mas a verdade é que essa surpresa é diretamente proporcional à nossa falta de conhecimento em relação às “entranhas” dos Estados Unidos; em relação ao que sobrou do “velho sonho americano”. O diretor conseguiu, com uma certa poesia, retratar o saldo da conta deixada por anos e mais anos de políticas governamentais completamente falhas. Dos esforços de guerra de Bush às reformas da saúde de Obama, as...
Leia mais

Fevereiros

Semana passada terminou a edição 2018 do Festival de Cinema Brasileiro de Paris e, encerrando o evento, vi o último filme dirigido pelo realizador Marcio Debellian. “Fevereiros” é um documentário que traz como figura central Maria Bethânia. Na verdade, uma Maria Bethânia que, através de suas idiossincrasias, representa nessa obra, o próprio Brasil. Um Brasil mestiço, pagão, religioso, profano, musical. Um Brasil, portanto, de contrastes. Apesar de ser extremamente suspeita pra falar desse assunto – pois AMO Maria Bethânia – penso que o mais interessante a cerca desse documentário foi justamente utilizar uma das artistas brasileiras mais conhecidas no cenário nacional e mundial pra “representar” algumas cores de um país que, pelo menos pra mim, andavam um tanto quanto desbotadas e, até mesmo, esquecidas. A verdade é que, em meio à pantomima política na qual o Brasil se encontra, meio que havia esquecido como o meu país é realmente belo. E isso, o filme de Debellian soube captar, se não com...
Leia mais

Mr Gay Syria

Confesso que vivo às voltas com indagações mil acerca das “fronteiras” entre documentário e ficção. O pior disso tudo é que nem sei até que ponto se trata de um questionamento realmente válido, uma vez que todo documentário traz sempre consigo doses de “mise-en-scène”. Acabei vendo ontem o filme da diretora Ayse Toprak, o qual usa como base a escolha de um representante sírio para o evento Mr Gay Mundo. Só com esse ponto de partida, você pode preparar um arsenal de perguntas e linhas de abordagem para essa narrativa. Primeiro, depois de anos em guerra e conflitos, como a população LGBTQI de refugiados sírios é vista ou mesmo aceita pelos seus compatriotas e pelos países que os acolhem. Segundo, como escolher uma meia dúzia de personagens para representar a realidade de refugiados LGBTQI, por exemplo, na Turquia ou mesmo na Alemanha? Terceiro, o que um documentário como este pode agregar para a luta de milhares de pessoas que...
Leia mais

Allure

Sem saber ABSOLUTAMENTE nada sobre a trama, assisti à “Allure”, filme de 2017 dirigido pelos, até então desconhecidos pra mim, Carlos e Jason Sanchez e que traz no elenco, entre outros, Evan Rachel Wood ("Aos Treze", "Across the Universe", "True Blood") e Denis O'Hare ("When We Rise", "American Horror Story", "The Good Wife"). Laura trabalha meio-período no escritório do seu pai e meio-período como diarista. E é justamente limpando uma casa que ela conhece Eva, adolescente de 16 anos com quem, imediatamente, ela se identifica. Eva, por sua vez, vive num ambiente sufocante e tem os dias definidos pela mãe controladora. Um belo dia, Eva, não aguentando mais a pressão, decide fugir de casa e pede ajuda à Laura. As duas passam então a meio que morar juntas, ainda mais depois que a polícia – que investigava o desaparecimento de Eva – decide que é “apenas” um caso de fuga e encerra as buscas pela garota. Quanto à Laura, desde...
Leia mais

Les Garçons Sauvages (The Wild Boys)

Poucas coisas me dão mais prazer do que ir ao cinema e assistir a um filme que não cabe em apenas um gênero cinematográfico. “Les garçons sauvages” (The Wild Boys) do diretor Bertrand Mandico conseguiu isso, fácil, fácil. Cinco rapazes são condenados a uma espécie de isolamento numa ilha, após violentarem e assassinarem a professora de teatro da escola. Para chegar à tal ilha, eles pegam um barco e, sob o comando de um homem a quem eles chamam apenas de “capitão”, sofrem - o que a gente costuma chamar - “o pão que o diabo amassou”. Chegando ao destino, eles percebem que não se trata de um lugar comum e lá, os cinco rapazes têm as vidas mudadas pra sempre. Isso é um resumo, acredito, bem “didático” do que se passa nesse filme. Porém, o importante não é apenas saber o que acontece, mas como esses eventos tomam forma. Após chegarem à ilha, os rapazes vão percebendo que não se...
Leia mais

The smell of us

Depois de filmes como “Kids” e “Ken Park”, meio que perdi de vista as obras do diretor Larry Clark. E, não fosse o intimista, mas extremamente interessante festival “Rebel Rebel” acontecendo do ladinho da faculdade, confesso que esse cenário não teria mudado. Sobre o tal evento, dois pontos pertinentes (ao menos, pra mim): primeiro, a master-class com o próprio Clark e, em segundo, a exibição da “versão do diretor” de The smell of us. [caption id="attachment_76824" align="alignleft" width="300"] Larry Clark (Festival Rebel Rebel, Saint-Denis)[/caption] Quanto à master-class, foi tarefa difícil segurar o riso enquanto o animador do evento (um pesquisador do célebre Cahiers du Cinèma) tentava, à duras penas, criar pontes entre suas análises dos filmes de Clark e o próprio realizador. Apenas para ilustrar: o animador fez uma comparação entre o personagem principal de “Kids” (Telly) e a imagem cinematográfica da figura do vampiro. Ou seja, o elemento marginal que, além de sugar o sangue e a vida, macula tudo...
Leia mais

Darkest Hour

Tarefa fácil me fazer ir ao cinema (mesmo embaixo de neve!). Ainda mais quando o filme fala sobre Segunda Guerra e traz no elenco nomes como Gary Oldman e Kristin Scott Thomas. Ambientado em Londres, a trama narra os bastidores da entrada inglesa no conflito mundial. Mais precisamente, o período em que Churchill (Oldman) assume o cargo de Primeiro Ministro em meio ao caos, a desconfiança e a estabelecida tendência britânica em fingir que nada estava acontecendo (ou seja, Hitler tomando a Europa toda). Óbvio que estamos falando de um filme blockbuster. Logo, temos um verdadeiro desfile de discursos grandiloquentes e a tentativa (eficaz) de transformar a figura de Churchill em uma espécie de super-herói excêntrico, mas brilhante. Resultado? Empatia e identificação quase que imediatas entre personagem e público e, no cinema, isso é meio caminho andado pra um filme fazer sucesso. Aliás, basta ver a quantidade de prêmios aos quais “Darkest Hour” está indicado. E, falando em prêmios, acho muito...
Leia mais
http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e