Cinematógrafo

The Square

O filme dirigido pelo sueco Ruben Östlund não só arrebatou a crítica especializada como levou a Palma de Ouro em Cannes. The Square tem como personagem principal o curador de um importante museu de arte moderna e contemporânea e é justamente esse o ponto de partida para todas as situações que acontecem durante o filme. Afinal, o curador é a personificação do ser humano moderno, atual, politicamente correto e que se acha superengajado. Ao coordenar a exposição de diferentes obras com um caráter “reflexivo”, sente que está fazendo o seu papel, enquanto cidadão “de bem” e, consequentemente, equilibrando a balança da desigualdade humana (principalmente, econômica e social). Ao abrir espaço para uma obra chamada “The Square”, segundo a qual “somos todos iguais em direitos e deveres”, o filme envereda por um caminho que eu adoraria chamar de “distópico” para retratar a sociedade. No entanto, como criar um cenário como tal, quando o próprio objeto narrativo já é, em essência, distópico?...
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IT

Sempre na busca por bons filmes de terror, fui ver “IT”. Baseado no livro homônimo de Stephen King, o filme se passa na década de 80 e narra os estranhos acontecimentos que marcam a pequena cidade de Derry e seus habitantes. Em particular, crianças e adolescentes. Ouvi vários comentários positivos sobre o filme, antes de vê-lo. E, pra ser sincera, achei a obra um pouco longa. Claramente, o roteiro se divide entre assustar o público – com situações características aos filmes clássicos de horror – e, fazer alusões aos filmes do gênero, sobretudo, dos anos 80. Logo, temos alguns sustos, muita comédia e aqueles momentos românticos estilo “primeiro crush”. Na trama, há um grupo de “ adolescentes excluídos e deslocados” (Goonies?), um grupo de garotos mais velhos e especializados nas mais variadas formas de bullying (Goonies, de novo?) e pais completamente alienados em relação aos reais problemas de seus próprios filhos (“Curtindo a Vida Adoidado” e quase todos os outros dessa...
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120 Batimentos por Minuto

A década, 90. O lugar, França. O assunto, a militância do grupo Act Up (AIDS Coalition to Unleash Power). Em termos de linguagem cinematográfica, um dos pontos interessantes foi posicionar a câmera de uma forma a transformar o espectador – logo no início – em um novo voluntário do grupo. As coordenadas de acolhimento vão sendo dadas aos personagens e ao público. Em outras palavras, a aproximação / empatia entre trama e espectador é criada desde o primeiro momento. Com um roteiro que mescla uma pegada meio documental com ficção, o filme mostra, através de personagens-chave, a relação entre os membros do grupo. A maioria, portadora do vírus, acaba passando a maior parte do tempo investida em ações de conscientização da sociedade em relação à doença, seu tratamento e, acima de tudo, à não invisibilização das pessoas portadoras da doença. O filme utiliza também passagens de tempo bastante interessantes, através da música e do clima da época. Obviamente, acaba usando todas...
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Mother!

Já tem algum tempo que acompanho a carreira do diretor Darren Aronofsky e, à exceção de Noé, acho a filmografia do cara realmente impecável. E, como esperado, com “Mother!”, ele acerta em cheio na direção e no roteiro, mostrando mais uma vez que domina muito bem o equilíbrio entre o surreal e o thriller. A trama conta os dias de um casal (Javier Bardem e Jennifer Lawrence) que vive em uma residência enorme, afastada e, eternamente, em reforma. A explicação é que em algum momento anterior, a casa foi incendiada.  Portanto, temos o homem - um poeta que luta constantemente para retomar sua inspiração e voltar a criar – e uma mulher, que ama ao extremo esse homem e passa os dias tentando reparar a casa para que esta volte a ser exatamente como era, antes do ocorrido. Com uma narrativa lenta, mas muito bem ritmada, vemos o cotidiano do casal mudar com a chegada, ao acaso, de duas pessoas desconhecidas....
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Nos Années Folles

Baseado em uma história real, o novo filme do diretor André Téchiné narra parte da vida do casal formado por Paul e Louise. Durante a Guerra, ele é forçado a se alistar, mas logo percebe que seu lugar não é no front. Pra sua sorte, após “perder” uma parte do dedo indicador, acaba sendo enviado de volta à Paris para se tratar. Tudo se (des)enrola a partir do momento em que, com a ajuda da mulher, Paul abandona o exército e passa a ter que viver escondido das autoridades, no porão da casa da sogra. É quando Louise tem a ideia de disfarçá-lo de mulher. E esse é o ponto de virada de toda a trama, pois Paul não apenas assume um disfarce feminino, como cria uma espécie de alter ego (Suzanne), com o qual passa a fazer programas com homens e mulheres, durante a noite. A questão toda é que o relacionamento entre Louise e Paul, além de extremamente passional, começa...
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Atômica (Atomic Blonde)

Além de estrelar, Charlize Theron assina também a produção do filme. Aliás, “filme” é uma palavra bem peculiar pra definir a obra, uma vez que a sensação que eu fiquei foi a de estar vendo um videoclipe enorme. Explico. Com uma trama que se passa, em sua grande parte, em Berlim e no final da Guerra Fria, a trilha sonora é realmente incrível, passando por nomes como David Bowie, Depeche Mode, George Michael. A questão é que a música não ocupa um lugar de narrativa de conteúdo, mas de uma narrativa meramente estética. Inclusive, essa é a grande questão. Não há uma real trama se desenrolando. Apenas uma sequência de cenas bem feitas, com suas respectivas músicas, looks incríveis, cortes acelerados e quase conexão zero entre as ações. Durante toda a projeção, temos Charlize Theron (bela, como sempre!) e uma coleção de roupas maravilhosas. Mas é claro que você pode argumentar que, em se tratando de um filme de ação,...
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3 Gerações

Além de ter um elenco incrível formado por Susan Sarandon, Naomi Watts e Elle Fanning, o filme aborda um tema super atual: a mudança de gênero. Na história, Ray (Elle Fanning) nasceu no corpo de uma mulher e está passando por um processo de transição para se tornar homem. Porém, por ser menor de idade, precisa do consentimento dos pais. A grande questão é que, além de ter que convencer a mãe, terá que ir atrás do pai, com quem não fala há anos. O filme não foge do óbvio, mas acerta em tratar o tema tendo como pano de fundo uma família longe do convencional. Afinal, a avó de Ray é casada há anos com outra mulher e todos vivem na mesma casa, tranquilamente. Em outras palavras, a obra mexe num ponto interessante ao dissociar “gênero” de “sexualidade”. Portanto, o preconceito sofrido por Ray não vem apenas dos amigos da escola e dos estranhos na rua, mas de dentro da...
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XX

Posso estar errada, mas acredito que XX seja a primeira antologia de terror com uma produção totalmente feminina. E, quando digo feminina, falo que as manas dominaram desde a produção, passando pelo roteiro e direção. Apesar de não ter nenhuma trama realmente genial, não significa que as histórias não sejam boas, ou ainda, muito bem contadas. [caption id="attachment_71597" align="alignleft" width="300"] The Box[/caption] [caption id="attachment_71598" align="alignleft" width="300"] Birthday Party[/caption] A antologia é composta por quatro curtas de terror: The Box, Birthday Party, Don’t Fall e Her Only Living Son. Uma curiosidade? Birthday Party é escrito e dirigido por Annie Clark. Sim, talvez você a conheça mais como a cantora e guitarrista St. Vincent. Passando a régua, dá pra afirmar que XX é uma produção inteligente e que traz em si uma coisa que adoro: histórias dentro de histórias. Em outras palavras, leva o CONTO pra dentro de cada quadro em movimento. Obra pra quem curte um bom terror, regado à pipoca e humor negro....
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O estranho que nós amamos (The Beguiled)

De cara, preciso deixar claro que sou realmente fã de Sofia Coppola. Logo, após o prêmio de Melhor Diretora em Cannes desse ano, fiquei ensandecida para ver o seu sexto filme. Tudo se passa durante a guerra civil americana, num internato sulista, no qual apenas algumas moças permaneceram. Entre trabalhos domésticos e aulas de etiqueta e francês, as jovens vão passando os dias, entre o tédio e a tensão da guerra. No entanto, num dado momento, uma das meninas descobre um soldado inimigo ferido dentro da propriedade e elas decidem cuidar do dito cujo, ao invés de entrega-lo ao exército confederado. E esse é o ponto de partida para aquele tal “silêncio que precede o esporro”. Rapidamente, mudanças de comportamento vão sendo observadas nas mulheres da casa e o “intruso” passa rapidamente a objeto de extrema curiosidade e atenção. Dias viram semanas e uma convivência, aparentemente cordial entre todos, vai deixando cada vez mais claro a existência de uma forte...
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Les Innocentes

Ambientado no ano de 1945, o filme toca em um assunto real e extremamente delicado: o nascimento de vários bebês em um convento na Polônia. No entanto, as mães são as próprias freiras. A obra usa como fio condutor, Mathilde, uma jovem francesa da cruz vermelha. Por mero acaso, ela acaba tendo contato com a tal congregação e, após algum tempo, uma relação de confiança fica estabelecida entre elas. Logo, a jovem passa a executar todos os partos. O foco, naturalmente, são as consequências devastadoras dos abusos sexuais cometidos pelos soldados, principalmente russos, contra as freiras e noviças do convento. Ponto interessante? O filme consegue manter uma atmosfera de tensão, sem recorrer à violência mais “gráfica”. Em outras palavras, consegue deixar o espectador bem próximo do trauma e do terror vivido por aquelas mulheres, sem recorrer ao “choque” fácil. Com um narrativa cinematográfica diferente da habitual em relação aos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, o filme é bem executado, com atuações críveis, fotografia...
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