Carros inesquecíveis, memórias eternas

Quem nunca teve um carro preferido, que atire a primeira pedra

Ok, pode ser que você não tenha tido um carro, mas um veículo qualquer, de velocípede, moto, ou carrão. Patinete, patins, skate? Nenhum? Duvido. Carro de algum tio, avô, qualquer parente? Nada?

Então você é o ser mais ermitão, azedo ou sem memória que apareceu na Terra. Impossível não ter nenhum tipo de contato ou lembrança, umazinha sequer, que te leve a um passado, uma lembrança lá do fundo do baú da memória. Eu tenho muitas.

Começando pelo Corcel da minha coluna, passando por inúmeras histórias deliciosas, outras traumatizantes, como aquela em que passei a pé, descendo a serra de Cunha – SP por não ter condições de ficar na garupa da moto. Tênis e calça, lama até as coxas, desci. E foi um passeio lindo pelo hoje Parque da Serra do Mar, mas que na época era só um monte de lama e ninguém dava bola.

Quem viveu essa época também há de se lembrar da Rio-Santos, com as estradas na praia, atolando na maré alta e sujando os pés na maré baixa. Hoje ali temos um emaranhado de casas, de condomínios, de gente e quase nada de praia à disposição. Sorte a minha de ter tido esse privilégio de me apavorar ao ir até Ubatuba pela Rio-Santos antiga, bons tempos!

E carona em carros inesquecíveis, como um Dodge Dart, meio lata, meio ferrugem, que mais atolava do que andava? Empurrei, corri, namorei, entalei. E incomodei. Muito e muitas vezes. Até o dia em que meu namorado na época, hoje meu marido, largou o coitadinho na rua pra nunca mais.

Então pensei em desencavar essas memórias, sei que todos têm uma lembrança de um veículo que fez parte da suas memórias, dando até uma chance de essa memória servir para que não se cometa novamente o mesmo erro: o de se emocionar pela mesma tranqueira que vai te deixar na rua.

Mas agora é moda, desde Overhaulin’ até os programas de reconstrução, tipo o Lata Velha até outros que surgem a toda hora. Você tem um fusca todo batido, podre, mas ele te faz lembrar do tanto de pipocas que comeu dentro dele, mas que hoje não passa de um saquinho de papel amassado? Ou uma moto 1950, toda estrupiada hoje, mas que te levou a lugares nunca dantes navegados e sem GPS? Como fazia, como sobrevivemos?

A pergunta certa é: quanto valeu, faria isso de novo? Certamente. A memória automobilística não é uma ciência, tampouco exata, mas é tão certa que não precisamos de muito tempo para lembrar de detalhes quase esquecidos.

Um instante que se torna eterno

Em dias como os de hoje, em que nunca tempos tempo para nada, em que a velocidade das informações é imensa, nunca nos damos um tempo para pensar no que foi que já vivemos, onde erramos e onde acertamos. De repente, os tempos de hoje devem ser vistos assim, como um pangaré andando a 2 km/h.

Quem sabe ainda possamos ver o que já foi feito pó e ferrugem e não deixarmos que o que venha estrague antes que saibamos o valor que aquilo tinha. tem ou terá. Sem ter que atirar pedra nenhuma.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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