Cada um ocupa o lugar que merece

Já não é mais novidade que o atual inquilino do Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro, conserva um imenso rancor pela comunicação social. Faz tempo que o jornalismo, sobretudo o independente, é alvo de seus insultos e disparates, bem como os profissionais do setor.

O líder do Governo Federal declara que é um apreciador da liberdade de expressão, mas seus discursos e atitudes demonstram exatamente o contrário. Bolsonaro sempre desprezou os veículos de informação que transmitem os fatos da maneira correta, ou seja, com elementos imparciais e holísticos. Atacava a imprensa em geral enquanto parlamentar e mantém o ultraje na condição de Presidente da República. Isso ocorre porque Bolsonaro é um indivíduo fútil e presunçoso que deseja ser reiteradamente louvado por todos. Não é à toa que se fantasiou de monarca no Japão há três semanas, pois adora causar a impressão de que possui muita autoridade e influência, tal como os soberanos discricionários de épocas remotas.

O chefe do Executivo brasileiro acredita que os jornais devem funcionar como agências de propaganda a fim de venerar sua imagem estrambólica, e não como instrumentos de utilidade pública responsáveis por externar os acontecimentos ao povo conforme os mesmos se sucederam. A propósito, é válido destacar que Bolsonaro tem oferecido certo apoio à difusão dos informes, desde que os eventos sejam abordados de forma unilateral para beneficiar o seu mandato que, de acordo com as estatísticas que analisam a opinião popular, sofre com uma rejeição profundamente insólita.

Apesar de ser taxado — merecidamente — de obtuso, o trigésimo oitavo Presidente do Brasil certamente já percebeu que nenhum comunicador honesto irá ceder às suas birras. Isso porque a obrigação de um jornalista decente é levar as notícias adiante; idolatrar políticos é uma atribuição que cabe exclusivamente aos seus correligionários.

O jornalismo autônomo pode ser facilmente equiparado a uma bússola devido a similitude entre os seus fundamentos e os quatro pontos cardeais: neutralidade, coerência, ressalva e prontidão. O termo preambular reflete a libertação perante aos governos, facções políticas, entidades do sistema financeiro, seitas religiosas e demais organizações de predicados diferentes. O segundo corresponde à apuração dos fatos em sincronia com a realidade inserida, dado que a principal missão das notícias é transformar o acaso em itens vítreos para os cidadãos. O terceiro é completamente adstrito à reciclagem de convicções e paradigmas, uma vez que não há compromisso dos relatos com os erros. Já o último equivale à propalação das ocorrências com a máxima celeridade, pois o cisalhamento das metrópoles atinge as reportagens com extremo rigor nesta era digital. Sem essas latitudes, a comunicação social torna-se impossível, e tudo o que irá restar são mensagens à deriva nos polos. Resgatá-las não interessa ao público.

É por essas razões que a integridade do jornalismo necessita de cuidados específicos, haja vista que o profissionalismo da imprensa é definitivamente anulado quando a mesma é reduzida em substâncias comerciais. A partir do momento que os fatos e o livre-arbítrio são admitidos como recursos imanentes, qualquer um que tente manipular o fluxo de informações é, com efeito, um vigarista. É preciso aceitar que o Brasil dispõe de normas constitucionais e que tais leis são as únicas diretrizes com legitimidade para atravessar os espaços da comunicação. Todavia, nem o próprio judiciário, que é um sodalício tão decrépito quanto os outros poderes da República, faz uso da carta magna para estes fins. Manifestar indignação não é algo proibido, contudo, é incapaz de silenciar os que se orgulham de suas funções jornalísticas — e não escondem isso de ninguém!

Somente os hipócritas, os biltres e os desequilibrados que se ofendem com a verdade contida em situações involuntárias. Rotular tudo o que seja inconveniente e desagradável como falso é um sinal crasso de imaturidade e egocentrismo, ainda mais quando surtos histéricos decorrem. Se Bolsonaro abomina os jornais unicamente por causa de publicações reproduzidas com isenção e transparência, é aconselhável que reconsidere seus valores, caso tenha pelo menos um.

O tráfego amplo de informações permite que o jornalismo desempenhe seu papel social, isto é, decodificar as eventualidades e transmiti-las à população de maneira clara e irrestrita. Os que perduram neste cenário são aqueles que dedicam suas vidas ao estudo de múltiplos assuntos para difundi-los com qualidade, sem distorções — e reconhecem as que possam vir à tona — e com provas cabais dos fatos que apresentam. A imprensa é uma estrutura que, considerando somente a práxis desenvolvida pela Revolução dos Tipos Móveis, já dura mais de quatrocentos e cinquenta anos e sempre contou com a anuência dos cidadãos. É a potência motriz da universalização do conhecimento através da produção gráfica e da inclusão digital. Nenhum método de comunicação pode resistir aos séculos lidando com a realidade de forma displicente, mas parece que o hóspede sazonal da Granja do Torto não tem competência para entender tal silogismo. Tamanha névoa, aliás, impede Bolsonaro de compreender que a maioria dos seus eleitores também configuram o público que ampara os jornais.

Ao longo de praticamente dois séculos de atividades jornalísticas formais pelo Brasil, apontar os mestres da categoria já não é tão importante em virtude de uma simples razão: nem mesmo pessoas como Alberto Dines ou Alberto Torres (sétimo governador do Rio de Janeiro e pai da antropóloga Heloísa Alberto Torres) ficariam em evidência sem o auxílio de uma pletora de colaboradores, que se empenham diariamente sobre tarefas que averiguam pesquisas e dados a fim de produzirem reportagens insignes. Todos os profissionais que se enveredam por este caminho sabem que não basta ser diplomado ou talentoso, pois é o brio que nos distingue uns dos outros! É o que nos faz prometer que a verdade dos fatos será defendida pela imprensa equânime! As notícias irrompem subitamente e o tempo de duração das coberturas é indefinido. Seria possível tabelar quantos comunicadores já tiveram que abdicar dos momentos de lazer com amigos e familiares por conta dos afazeres?

Não obstante, nossa resignação é hiperbólica porque temos certeza de que uma sociedade esclarecida planeja melhor seus objetivos e, consequentemente, adota soluções mais eficientes. Os países retratados como exemplos de civilizações permanecem logrando tal êxito devido aos informes factuais circulando incondicionalmente, e quem contribui para isso em primeira instância somos nós, os jornalistas: editores, redatores, infografistas, repórteres, correspondentes, fotógrafos, impressores, apresentadores, locutores, colunistas, assessores, distribuidores e vários outros que trabalham com muito afinco para que a voz da coletividade siga oferecendo respaldo à imprensa. Agir feito vassalos de políticos em detrimento de toda a nação? Jamais!

Afrontar nossa classe por intermédio de palavras de baixo calão e outras injúrias não descreve quem somos; apenas corrobora a falta de senso do ridículo daquele que emite tais hebetismos. O chefe de Estado e de Governo do Brasil precisa ser denunciado como alguém que não possui respeito pela jurisdição nacional que é obrigado a proteger. Bolsonaro é um inimigo da democracia verídica porque, além de fomentar a censura por ser moralmente instável, justifica as desigualdades sociais com os pretextos mais sórdidos possíveis. Entretanto, o público não deve esperar objeções análogas da imprensa, e sim a multiplicação de suas atividades, com a extensão da busca pelos fatos sem a mínima hesitação, descortinando os incidentes positivos e negativos e repreendendo os que procuram cercear o direito inalienável do acesso à informação.

Frases e condutas são as preposições que determinam o nível do caráter dos seres humanos e os transfere para a cronologia historiográfica. No Brasil, a imprensa solene e indômita existe há quase duzentos anos e recebe mais congratulações do que desaforos. Veremos qual será o lugar reservado para o Excelentíssimo Senhor Jair Messias Bolsonaro no arco imaterial do tempo. Por ora, fica provado que a deferência projetada sobre a erudição e a honestidade traz um jornalista incorruptível para cooperar com o desenvolvimento social da nação; o contrário disso exerce o cargo de superintendente do Palácio do Planalto em razão de não ter aprendido nada para ajudar os seus compatriotas.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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