Brasil foi responsável por mais de 50% do PIB da América do Sul em 2021

O país ocupa a posição desde a década de 1970, com ampla diferença em relação ao segundo colocado, a Argentina, que foi responsável por 15,3% do PIB da região em 2021

O Brasil manteve um status de liderança na América do Sul em 2021, e foi responsável por mais de 50% do Produto Interno Bruto (PIB) da região no ano. Os dados são do Banco Mundial.

O país ocupa a posição desde a década de 1970, com ampla diferença em relação ao segundo colocado, a Argentina, que foi responsável por 15,3% do PIB da região em 2021.

Para especialistas, o resultado reflete uma capacidade brasileira de aproveitar melhor potencialidades do país, mas não significa que a economia não passe por problemas ou não demande reformas para melhorar seu desempenho.

Considerando a variação por década desde 1965, quando Paraguai e Argentina começaram a compartilhar dados com o Banco Mundial, o Brasil já teve níveis maiores de participação. Em 1995, 55,55% de todo o PIB sul-americano era brasileiro. Em 2015, era 53,7%, enquanto que em 2020 foi de 51,8% e, em 2021, de 50,12%.

Os dados, porém, não levam em conta a participação venezuelana, que deixou de compartilhar dados com o Banco Mundial.

Para Lia Valls, pesquisadora do Ibre-FGV e professora da UERJ, a liderança brasileira mostra o tamanho da própria economia, ligada a um território grande, maior nível de industrialização, riqueza em termos de recursos extrativos e agropecuária competitiva.

Ela ressalta que o cálculo de participação feito no chamado “dólar corrente” envolve a conversão do PIB do país na moeda nacional para a norte-americana. Ou seja, se a taxa de câmbio entre as moedas estiver desvalorizada, o PIB terá um valor menor, mesmo que o tamanho não seja diferente.

Argentina

Esse fato explica, em parte, um dos movimentos do gráfico: quando o Brasil ultrapassou a Argentina entre as décadas de 1960 e 1970 como país com maior participação.

Em 1965, o PIB argentino correspondia a 34,61% do total sul-americano, enquanto o brasileiro era de 27,43%. Dez anos depois, o Brasil era responsável por 49,15% do total, ante os 19,94% da Argentina.

Valls diz que a Argentina foi um dos primeiros países da região a se industrializar, no começo do século 20 e à frente do Brasil, e por isso teve por anos um PIB equivalente ao de países europeus.

A partir década de 1960, porém, o país entrou em uma sequência de quedas, endividamento, inflação alta e desvalorização cambial que fizeram a economia argentina não apenas perder a liderança na América do Sul, mas também estagnar.

“A Argentina tem sofrido uma série de crises, e teve uma liberalização forte que deu errado. Depois entrou em um período de hiperinflação, aí no início dos anos 1990 melhorou, mas tem uma crise profunda em 2001. Depois, melhorou, mas entrou novamente em crise”, resume.

No caso brasileiro, a industrialização demorou mais para começar, mas acabou sendo mais bem-sucedida, em uma época onde os países da região buscaram reduzir suas importações.

“A ideia era incentivar a industrialização via protecionismo, mas isso demanda mercados grandes, e o mercado interno brasileiro é o maior, não tem comparação, então conseguiu diversificar indústria, atrair capital estrangeiro voltado ao mercado interno, e além disso é um país muito rico em recursos, com potencial muito grande”, afirma Valls.

Chile e Colômbia

Hoje na terceira e quarta posições de participação do PIB, o Chile e a Colômbia apresentam características econômicas diferentes da Argentina, que segundo a professora tem permitido o crescimento nas parcelas do total da região.

“O Chile teve mais estabilidade, e a Colômbia não tem grandes inflações apesar da desigualdade alta, os dois possuem indicadores macroeconômicos fortes e mais estáveis”, explica a professora, o que resultou em uma tendência de crescimento na participação.

Já Paulo Feldmann, professor da FEA-USP, destaca que a própria liderança brasileira existe porque “nossos vizinhos andaram para trás na última década”, enquanto a economia do Brasil se manteve estagnada ou cresceu pouco.

Muitos problemas econômicos dos vizinhos na região estão ligados, segundo o professor, a uma tentativa de adotar o chamado “Consenso de Washington”, uma série de medidas econômicas defendidas pelos Estados Unidos.

“No fim dos anos 1980, o foco dos Estados Unidos era abrir o mercado mundial, inclusive o latino, para suas empresas”, avalia.

Para isso, foi defendido um conjunto de medidas que envolveria a abertura dos mercados desses países a importações, privatizações, redução do tamanho do Estado e substituição do planejamento estatal para soluções do mercado.

Para Feldmann, isso levou muitos países, como a Argentina, a “quebrar a indústria”, prejudicando suas economias e capacidade de crescimento.

“O modelo norte-americano foi diferente do europeu, em que as grandes economias do continente fomentaram os países mais pobres para estimular a formação de bons mercados consumidores. Com isso, a Europa toda cresceu”, afirma.

Já na América do Sul, o investimento dos Estados Unidos teria sido pequeno, levando a região a um atraso em seu desenvolvimento econômico.

Na visão do professor, a liderança brasileira se deve a um forte crescimento econômico entre 1940 e 1980, ligado a um forte planejamento, em especial de política industrial, e uma proteção a empresas e produtos nacionais.

Além disso, Feldmann considera que “o Brasil teve algumas competências que foram desenvolvidas ao longo dos anos. A principal é que aprendemos a superar a inflação com o Plano Real em 1994”.

É um cenário diferente, por exemplo, da Argentina, que convive até hoje dívida e inflação altas. O professor também considera que o Brasil possui um histórico melhor de gestão econômica, o que se mostrou uma vantagem.

Outro fator que ele cita é que a abertura brasileira a importações, iniciada durante o mandato do ex-presidente Fernando Collor, foi pausada no mandato de Fernando Henrique Cardoso, que optou por uma abertura mais “planejada”.

“Alguns setores foram protegidos. A ideia foi de não abrir alguns setores para não quebrar grandes empresas devido à competição, ou então fortalecer empresas, via vantagens, para permitir a competição com grandes estrangeiros”, explica.

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