Baixada, batuques e preconceitos

O samba-enredo da Grande Rio de 2020 abre uma importante discussão, presente atualmente na sociedade, sobre preconceitos e intolerância. Além disso, também destaca a forte presença das religiões afrobrasileiras na região da Baixada Fluminense.

Já abordamos aqui neste espaço a vida do personagem homenageado no enredo, o pai de santo Joãozinho da Gomeia. Entretanto, uma das motivações para a escola de Duque de Caxias contar essa historia, é a intolerância contra as religiões de matrizes africanas, principalmente por parte de grupos evangélicos neopentecostais.

Mas não é só isso. Ainda recentemente, criminosos do narcotráfico, que atuam nas comunidades do Rio de Janeiro, proibiram cultos de umbanda e candomblé em suas áreas de atuação. Chegaram a invadir terreiros, destruir imagens sagradas e expulsar seus adeptos.

A escola de samba Grande Rio está localizada em Duque de Caxias, onde Joãozinho da Gomeia foi morar e fincou seu terreiro quando saiu de Salvador. Por isso, este enredo é tão simbólico.

Por outro lado, a Baixada Fluminense é a região do Rio de Janeiro que concentra o maior número de terreiros de religiões afrobrasileiras. Alguns liderados por yalorixás reconhecidas nacionalmente, como a falecida Mãe Beata, de Nova Iguaçu, Mãe Meninazinha, do Axé Opoafonjá, em São João de Meriti e Mãe Palmira, de Mesquita.

O avanço das igrejas evangélicas neopentecostais com uma agressiva atuação nas periferias das cidades e pregação de forte proselitismo fez recuar essa visibilidade das religiões afrobrasileiras na Baixada Fluminense, tornando seus cultos quase que clandestinos.

Recordo que, na minha infância, nas noites de finais de semana, deitado para dormir, o som que mais se ouvia eram dos batuques, tantos os vindos das quadras de blocos e escolas de samba, mas também dos inúmeros terreiros de candomblé existentes.

Hoje, os que ainda resistem, preferem manter cerimônias sem tanto alarde. Que a Grande Rio, agora, com este enredo, possa quebrar esses preconceitos e tornar mais consciente o desejo de igualdade, que as leis do país garantem.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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