Autora independente mostra o poder de um fandom

Fãs de série de livros nacional comemoram sucesso da autora Luciane Rangel e da ilustradora Ana Claudia Coelho no Rio

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Anny Lucard

A autora da trilogia ‘Guardians’, Luciane Rangel, comemorou, no Rio do Janeiro, junto com a ilustradora dos livros Ana Claudia Coelho e fãs, mês passado, dois anos da publicação do primeiro volume. Contando com o apoio do grupo Novos Escritores, as duas encheram a Nobel do Norte Shopping de fãs e amigos.

Djan Skwar, um dos organizadores do evento, comentou particularmente feliz com o sucesso de Luciane Rangel pois foi a primeira autora a abraçar a ideia do grupo ao participar do primeiro evento promovido por ele. Eventos  como esse atualmente levam a literatura para a Zona Norte carioca.

A autora é um exemplo de trabalho de incentivo à leitura da nova geração de autores nacionais. Prova de que o sucesso de uma história, além de escrever algo bom, está nas mãos de um fandom (conjunto de fãs). Isso porque mesmo uma boa história pode terminar restrita ao seu tempo e se perder com o passar dos anos, mas uma história com fandom alcança as gerações futuras. Luciane Rangel faz parte de uma destemida geração de autores brasileiros que gosta de escrever literatura fantástica, apesar das críticas ainda grandes contra o estilo, já que a ideia pregada por muitos acadêmicos é de serem livros de qualidade inferior e com fãs histéricos.

O fandom de ‘Guardians’ e a paixão pela leitura

O que acadêmicos ainda não perceberam é que mesmo que muitos textos não sigam certos padrões. Há histórias muito boas e atacar um fandom, como é conhecido o grupo de fãs de uma determinada obra, não é vantagem para ninguém. Os bons textos, sejam literários ou roteiros, precisam de um fandom que passe aos mais jovens a paixão da leitura das histórias.

Os próprios textos clássicos precisaram de fãs, ou teriam sido esquecidos e nunca chegariam até os dias atuais. Professora do Magistério e formada em Direito, Luciane Rangel divide-se entre o trabalho de escritora e a Faculdade de Letras de Japonês, entre outras coisas. Quando perguntada sobre a história de ‘Guardians’, como outros autores brasileiros de literatura fantástica, ela teve que buscar fontes fora, dada a falta de tradição em textos fantásticos no Brasil.

Também apaixonada pela cultura japonesa, Luciana buscou referências orientais. Aprendeu a desenvolver personagens e história, com ponto de vista das histórias fantásticas do Japão, que chegaram ao Brasil principalmente em forma de animes e mangás. Luciane  e a ilustradora Ana Claudia Coelho falam que a parceria para os livros surgiu ao unirem as ideias para roteiros de quadrinhos de uma, ao trabalho de ilustração da outra.

Claudia Coelho, por exemplo, sugeriu de início um trabalho conjunto em quadrinhos, mas Luciane Rangel não é boa em desenho, tendo entretanto ótimas ideias de roteiro. Assim autora e ilustradora optaram por uma light novel, um tipo de livro com ilustrações que se populariza no Brasil, principalmente entre os jovens adultos leitores. Ambas destacaram a importância do fandom, que mesmo sendo uma questão que a maioria dos acadêmicos preferem ignorar, é a chave do sucesso e eternização de uma obra.

Seja fã das clássicas bruxas de William Shakespeare ou do bruxinho Harry Potter de J.K. Rowling, o fandom de uma obra não é um grupo que acha tudo lindo e nunca critica. Pelo contrário, os fãs são iguais a uma família e por conhecer bem personagens e história, adoram dar palpite e questionar.

Família unida

Dentro dos fandoms há questões discutidas como em qualquer família. No entanto, os membros do fandom são unidos e se defendem quando atacados por aqueles que, mesmo desconhecendo a obra a fundo, teimam em atacá-la por ser diferente do que estão acostumados.

No caso da nova literatura deve-se levar em conta que críticos que se restringem a um determinado tipo de texto, são como médicos especializados. Então, se um psiquiatra não pode operar alguém do coração, um crítico que só estudou os clássicos, não tem conhecimento suficiente para entender a natureza dos textos escritos fora desses padrões.

Uma boa parte dos escritores, quadrinistas e roteiristas nacionais já perceberam o que os acadêmicos não aceitando, que negar a nova literatura é manter a leitura restrita na elite, limitá-la a uma minoria. Independente do tipo de trabalho que fazem ou gostam, é importante quem buscam incentivar a leitura, apoiar iniciativas que divulgam a nova literatura, seja junto a grupos, como os Novos Escritores, ou individualmente, como os criadores de sites do tipo Adorável Noite e Portal Ju Lund.

Nem todo novo autor escreve como os da nova literatura, que surgiu com textos que falam principalmente aos jovens leitores. Uma tendência mundial, que surgiu recentemente e fez muito pelo incentivo à leitura no Brasil.

Com a falta de livros escrito por brasileiros que conversam com os jovens, especialmente os jovens adultos de literatura fantástica, foram importados muitos títulos, os quais abriram portas para ótimas histórias nacionais serem publicadas atualmente, mesmo que de forma independente.

Muitos autores brasileiros ainda bancam suas publicações, mas Luciane Rangel, ao se juntar com Ana Claudia Coelho para publicar ‘Guardians’ de forma independente e em formato de light novel, já possuía um fiel fandom, que a seguia na internet, incentivando as publicações.

Quanto vale ?

Ana Claudia Coelho comenta que “é fácil reconhecerem seu talento quando ele é disponibilizado de graça, mas depois da publicação, cada exemplar vendido para um desconhecido é comemorada por não termos ainda um nome que garanta a qualidade daquilo que se vende”.

A ideia de disponibilizar os textos gratuitamente, comum hoje entre novos autores brasileiros, surgiu em grupos de escritores de fanfic, que após escrever sobre o universo de personagens de outros autores, dos quais são fãs, passaram a desenvolver textos originais.

Quando questionada sobre os escritores que surgiram em grupos do tipo, Luciane Rangel revela que antes de escrever as próprias histórias escreveu fanfics também: “vejo essa forma de texto como um excelente exercício de criação e de escrita”.

“Acho que esta é, sim, uma ótima forma de incentivo. Temos ficwriters que não perdem nada em qualidade para escritores famosos”, complementa. Sobre a discriminação de escritores que começaram da mesma maneira e de alguns que infelizmente ao invés de criar histórias originais, tentam ganhar as custas do trabalho dos outros, Luciane Rangel deixa claro que “é preciso ter em mente que esse tipo de texto é apenas para entretenimento do autor, não podendo ser publicado para fins lucrativos, pois viola leis de direitos autorais. Mas como uma forma de prática para futuras histórias próprias, acho incrivelmente válido”   .

Já quando fala sobre a discriminação, ela revela não entender qual a lógica. Isso porque basta dizer que começou escrevendo fanfic que a ideia que o autor “copia e por isso não pode ser original” para ignorarem a obra, independente da qualidade do texto. Quando na verdade todo autor precisa de referências para criar as próprias. Os livros de Luciane Rangel são publicações independentes, mas Ana Claudia Coelho comenta que isso não o desqualifica pois “tem material sem qualidade sendo jogado na mídia por força das costas quentes.

Tanto é verdade que ‘Guadians’ já foi o tipo de obra que algumas editoras disseram não publicar, mas também que encontrou empresas dispostas. Então, toda chance foi agarrada com força porque é um processo muito difícil. Dedicação aos fãs recompensada com envio de videos, de várias partes do Brasil, com depoimentos emocionados, que foram exibidos durante a festa para os membros do fandom carioca. Vários membros do fandom de ‘Guardians’ presentes fisicamente na livraria e também virtualmente, pois a celebração foi transmitida ao vivo pelo Novos Escritores.

Quem estava presente fisicamente ou online, participou de sorteios e pôde fazer perguntas tanto para a criadora da história como para a ilustradora que deu cara aos personagens.  Durante a festa foi lançado oficialmente uma história solo de duas personagens dos livros, ‘Micaela&Maire’, que é o 1º Livro Extra de ‘Guardians’. A história está disponível na internet gratuitamente em eBook.

No entanto, mesmo com a versão gratuita em eBook, a autora precisou disponibilizar uma versão do livro impressa para venda, já que os fãs queriam o livro para reuni-lo a trilogia em suas estantes.  Celebração que foi concluída com bolo e refrigerante para os presentes na livraria, que foi a única desvantagem de quem estava online.

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