As vezes no Pier, a melhor Company pode ser o Anonimato

Um dia abri meu guarda roupa e percebi que elas estavam desbotadas e não dava mais para sair. Fiquei triste, pois sabia naquele momento que estava perdendo minhas referências sobre ativismo natural

Me peguei hoje pensando nos anos de 1980 e percebi que muitas coisas que lá eram tidas como novidades, hoje ainda soam como tal. Em vários setores da sociedade temos algo que nos remeterá a década da criatividade. Enquanto divagava pelos anos poéticos, eis que minha campainha toca. Fui atender e era p meu grande amigo Juarez Botelho. Fazia um certo tempo em que não batíamos aquele papo agradável. E logo o chamei para conversar e relembrar feitos marcantes ou mesmo momentos comportamentais de uma geração que explodia amor e liberdade.

Devidamente sentados e com um copo de suco de abacaxi, demos início a uma resenha pra lá de saudosista. Estava falando com ele sobre momentos antes de sua chegada, eu estava lembrando de algumas passagens dos anos 80. Falei com ele de como éramos felizes e inconsequentes, mas que nada disso nos prejudicava e nem as outras pessoas. Acampamentos e festas foram a tônica do papo. Quantos acampamentos fizemos naquele período. Sempre no litoral, pois minha geração além de curtir e respeitar a natureza, sempre gostou do mar. Eu sempre tive o mar como o meu terapeuta. Sempre que estava mal era lá que eu tinha as minhas sessões. E sempre saía de lá de alma nova.

Se em 1973 existissem redes sociais, Company ia ser um dos maiores trending topics

Mas outro assunto que rendeu foi como nos vestíamos e como a idolatria pelas marcas de roupas e acessórios era marcantes nos idos de 1980. Existiam algumas marcas que eram as mais desejadas pelos jovens, entre elas a Company, Pier e Anonimato entre outras. Aqui no Rio, as mais procuradas eram a Company, que exigia um certo poder aquisitivo maior para se obter suas peças devido ao alto custo, a Pier e Anonimato eram mais acessíveis e portanto, as mais usadas pelos jovens. O fato era que ninguém queria deixar de usar essas marcas.

No início de 1970, o surfe despontava e lá estava a Pier

O Juarez lembrou também que no caso da Company, o mais interessante dela era o fato de desde o fim dos anos de 1970 já está engajada na proteção do planeta e dos animais. Os “save the planet” que me desculpem, mas esse tema já é velho. É verdade. Me lembro de ter adquirido algumas belas camisas com estampas que retratavam os perigos contra a desmatamento da Amazônia, o risco que era a usina nuclear de Angra dos Reis, a falta de preservação do Pantanal e outros temas como a homenagem a Antônio Carlos Jobim, Tracy Chapman, entre outros.

Surf shop. Essa era a onda nos anos 1980

Muitos acreditam que os anos 80 foram os melhores do pós contracultura iniciado nos anos de 1960. Eu tenho que admitir que foram os melhores para a música e a cultura. Com um mundo mais livre pudemos absorver tudo que nos era enviado, ainda que com certa demora, pois ainda não havia internet e globalização. Mesmo assim vivíamos com sede de conhecimento que nos permitiu compreender e entender tudo que estava por vir. Bons tempos. tanta coisa aconteceu e ainda é viva na memória de muita gente.

A conexão hoje nos permite grudar a tela do computador e reviver tudo aquilo novamente. Matar saudades, interagir com o passado não é uma forma de prisão e sim a possibilidade de se readaptar no tempo. Voltar no tempo com a sabedoria e experiência que temos hoje é um bônus que ganhamos por termos sido bons alunos num tempo onde se esperava mais para obter o prazer. Bons tempos esses. Precisamos viajar mais e entender mais tudo aquilo. Parece que aquela época se passou a bordo de um foguete que passou tão rápido que precisamos voltar até lá para ver se deixamos esquecemos algo.

Por fim, Juarez já com os olhos marejados, levantou do sofá e me disse: “Ainda guardo viva em mim todas as emoções que vivo nos anos 80. Mas não posso negar que hoje sou mais feliz porque consegui por em prática tudo aquilo que aprendi lá atrás. A maturidade chegou para mim, meu amigo, e isso não tem preço.” Olhei para ele e disse que uma das coisas que mais me orgulhava de ter vivido intensamente os anos 80 era o fato de ter feitos amigos verdadeiros. E que ele era um desses. naquele momento tivemos a vontade de nos abraçarmos como fazíamos e nos lembramos que hoje vivemos numa pandemia que nos colocou no isolamento e nos tirou o direito do abraço, a forma mais pura de se comemorar uma bela amizade.

Fico por aqui deixando um pouco de nostalgia e mostra deque mesmo o passado pode ser presente quando lá atrás deixamos coisas bonitas e aprendemos o sentido da vida. Um dia voltaremos a nos abraçar como nos anos 80 e talvez com uma consciência melhor adaptada aos novos dias. É o que espero, pois faz tempo que acredito nos dizeres daquelas camisas que um dia me orgulhei de vesti-las.

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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