Animais também precisam de equilíbrio

Como um ser vivo pode se transformar em lenda. Ao menos por uma meia-vida

Todos temos um patuá, uma coisinha sequer que nos dê aquela sorte em alguma coisa na vida, uma luz (sem ser cola) no meio da prova, uma acalmada no meio da aflição, uma lambida no rosto no meio da solidão. Eu tenho vários, de bichos a coisas inanimadas, que sempre me dão sorte em algum momento, por mais bizarro que seja.

Um dia, aconteceu de um polvo “prever” finais de jogos na Copa de 2010, acertava todos os resultados, sem medo de ser feliz. E, por não ter medo de ser feliz, morreu de causas naturais, como tinha que ser, afinal, sua vida é muito mais curta que a de um ser humano.

E por que falo dele agora sem que alhos não rimem com bugalhos? Porque estamos em busca de algum conforto, procurando uma resposta acalentadora, mas que possamos abraçar, colocar no colo, fazer um cafuné, esperando que seja recíproco. E isso, certamente Paul, o polvo, não tinha, afinal, quem quer afagar ou pôr no colo um ser mole, com tentáculos?

A sua única vitória foi a de ser visto por uma multidão de frenéticos fanáticos por uma vitória de seu país, ao menos um joguinho, um golzinho que fosse, um só.

Um aquário foi criado, uma infinidade de pelúcias foi feita, visitas foram agendadas, apostas foram criadas. E, como tudo nessa vida, o polvo foi esquecido, a vida segue. Mas o 7×1…

Paul foi celebridade só por alguns meses, o suficiente para encher o bolso de muitos apostadores e esvaziar o dos viciados perdedores. Apostar nunca foi fácil, ganhar é que é o difícil, não há nada que uma mascote, ou patuá, resolvam. Você ganha, perde, separa, divide. Faz parte da vida, não dos tentáculos que foram pro outro lado da torcida.

Imagino, então, se Buda pudesse reclamar da dermatite que ficou de tanto esfregarem dedos na sua barriga, o que ele diria? Paciência, discípulos, a sua sorte não está no meu umbigo, mas na sua vontade. E me dê uma pomada milagrosa que isso coça demais!

O único que saiu perdendo foi Paul, que poderia ter vivido de boas, no mar, cheio de amigos mexilhões ao seu redor, prontos para serem comidos livremente. E que nunca, nunquinha na sua breve vida, sequer relou no umbigo de alguém, que dirá do Buda!

Quis o destino que Paul se transformasse em uma lenda, um oráculo, mas o que ele queria mesmo era ser só solto no mar, jogar seu nanquim quando fosse ameaçado, o que era extremamente divertido. A sorte do Paul foi lançada ao mar, com todos os milhões arrecadados sabe-se lá por quem ou quantos.

“O segredo da saúde da mente e do corpo está em não lamentar o passado, em não se afligir com o futuro e em não antecipar preocupações” Sammāsambuddha

Isso sim devemos levar pra vida, sem patuás, mascotes ou sorte. Só consciência.

Por

Jornalista, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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