Alguém lá em cima ousou mais

Como um incêndio de proporções devastadoras mostra que nem tudo virou cinzas

Ao mesmo tempo em que recebo notícias horripilantes de desleixo e maldade com um animal, seja ele qual for, saber desses horrores e nada fazer não é bem o que eu penso de como defender os menos sortudos, pra não dizer os mais desafortunados.

Vejo o caso do incêndio no Pantanal, que mostrou a força hercúlea de uma onça-pintada, o Ousado, ao fugir das chamas e continuar aguardando na beira do rio Corixo Negro, com fome e sem forças para se alimentar, pelo socorro dos bombeiros e veterinários que, heroicamente, o salvaram daquilo que seria o pior fim dessa história.

Ousado teve sua valentia e determinação que, junto ao seu instinto de sobrevivência, tenham sido postos à prova ao ser transferido por água, terra e ar (de helicóptero!) até uma base de tratamento. E com apenas um dardo anestésico disparado por um veterinário para ser transportado. Macho alfa, sem sombra de dúvida.

Onça-pintada Ousado
Ousado, já resgatado, não perde a realeza
Foto: Dida Sampaio / Estadão

Com suas almofadinhas em carne viva, ou quase morta, ele sobrevive a todos os dias, com aquela força maior que faz com que todos os dias normais de uma onça do Pantanal sejam brincadeira de criança.

Ainda maior tarefa será a volta dele ao seu habitat, que deve ser feita no fim de outubro, com a volta das chuvas, garantindo assim um mínimo de alento aos animais e às plantas, agora queimadas, mas com a garantia de rebrota da vegetação rasteira, que alimentará a parte de baixo da cadeia alimentar, dando um respiro e um equilíbrio ao ecossistema.

Estamos todos torcendo não só pelo Ousado, mas por todos aqueles que têm a ousadia de lutar pela sua própria vida ou de ousar sobreviver em um lugar, guiado por uma linha reta e direcionada, pelo respeito e amor pela vida alheia.

Equilíbrio deveria ser a palavra da vez, mas seu derivado, o desequilíbrio, se tornou a palavra constante em todos os canais de (des)informação.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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