Agoniza mas não morre

Esta semana o mundo do samba e a música popular brasileira perderam um de seus mais importantes baluartes

Nelson Sargento pode ser considerado um dos últimos grandes representantes da geração primordial. Aquela que formatou definitivamente o samba a partir da década de 30 do século passado.

Aos 96 anos e com mais de 400 composições, ele foi parceiro de Cartola e conviveu com sambistas fundamentais para a consolidação desse gênero musical brasileiro, como Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros,  entre outros. Aos 12 anos foi morar no morro da Mangueira, paixão de toda a vida, onde formou se compositor até  tornar se presidente de honra da escola de samba.

O seu samba-enredo “As quatro estações”, de 1955, em parceria com Alfredo Português e Jamelão, é considerado um dos melhores da história, obrigatório em qualquer antologia musical. Os versos são conhecidos: “Oh primavera adorada / inspiradora de amores / Oh primavera idolatrada / sublime estação das flores”.

Mas sua obra definitiva, cartão de apresentação é, sem dúvida “Agoniza mas não morre”, na qual traça as dificuldades vividas pelo samba, muitas presenciadas por ele. Numa época em que a batucada sofria forte preconceito, inclusive com perseguição policial.

Outro grande sucesso é “Falso amor sincero”, aquele que diz , “O nosso amor é tão bonito / ela finge que me ama / e eu finjo que acredito”.
Nelson Sargento fez parte de dois grupos que marcaram época no samba carioca, na década de 60: A voz do Morro e Os cinco crioulos.

Além de sambista, era um artista multimídia. Aproveitou seu dote profissional de pintor de paredes para o talento nas artes plásticas. Pintou quadros no estilo naif e participou de várias exposições. Publicou dois livros e atuou em filmes como Orfeu, de Cacá Diegues e O primeiro dia, de Walter Sales.  Teve um documentário sobre sua vida: Nelson Sargento da Mangueira,  de Estêvão Ciavata.

Enfim, partiu mais um sambista da alta estirpe. Os que aqui ficam prosseguem na missão de continuar o legado e fazer jus aos seus versos geniais. “Samba agoniza mas não morre /alguém sempre te socorre / antes do suspiro derradeiro”.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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