Afinal, você é um homem ou um rato?

Meu pai sempre perguntava isso quando alguém queria fugir da raia. Ou do problema. Ou da responsabilidade

Depende, qual rato estamos falando? Eu não acredito que ratos são seres inferiores. Sim, são de tamanho PP, mas pensam e ajudam o ser humano em inúmeros testes para talvez salvar-nos de doenças. Além, é claro, daqueles pequenos que nos ajudam farejando bombas e outros itens assustadores. É certo que os ratos fogem quando nos veem, é só medir porcamente o nosso tamanho e o deles.

Mas, grosso modo, os ratos são valentes até demais. Acha que é fácil ficar perambulando pelas sarjetas atrás de um cantinho com alguma migalha velha? E os gatos? E os mendigos e carros? E as vassouradas? E as espingardas de chumbinho? E os que saem impunes, enquanto (péssimos) políticos? Esgoto ali é só um aperitivo pra tantas cretinices.

E então vem a onda do rato do bem. O Rato Herói (Rat Hero), aquele que ninguém vê, principalmente no Brasil, em que ratos vagam incessantemente por bueiros, ralos, esgotos e documentos. Bem, aqui também não temos bombas, não essas. A essas nem o Mickey Mouse quer saber. Deixa, o Pateta resolve.

Magawa, o rato mais homem que muitos por aí

Magawa foi um ratinho tão especial que deu quase vontade de pegá-lo no colo, tamanha fofura. Essa criaturinha foi herói durante 5 dos seus 8 anos de vida. Tão pequena e tão grandiosa, farejando minas pelos terrenos do Camboja, ô lugar assustador! A vida dele foi assim: correndo, farejando, alegrando, salvando. E nós aqui às vezes fugindo, às vezes correndo atrás do rabo. E sem encontrar uma solução sequer. Magawa morreu como um herói, foi dormir e não acordou mais por aqui. Morreu com uma medalha de ouro no peito. Morreu com todas as honras de um herói.

Me lembrei de um livro, MAUS: a história de um sobrevivente. Uma graphic novel (ou romance gráfico ou apenas um livro de quadrinhos) incrível, que mostra uma entrevista com o pai do cartunista, judeu polonês enquanto sobrevivente do Holocausto. MAUS, para quem não sabe, é rato em alemão. E na história, os ratos são as vítimas. Os outros? São os outros, de gatos a porcos. Nada mais propício para aqueles tempos de cólera, aqui no sentido de ira. Nada mais propício para nossos tempos irados, também nesse pior sentido. Ainda não temos vacina contra essa doença social.

Quem diria que um rato, com todos aqueles dedinhos, cheio de artimanhas, poderiam ser um ícone quando falamos de salvar vidas? Não estou falando de vacinas, porque delas todos falam o tempo todo, todo o tempo. Falo aqui de como os ratos podem ser ilustrados como os piores e os melhores do mundo. Tão diferentes de contexto e tão presentes nas nossas vidas, sejam eles ratos de verdade, fedidos, sujos, ou aqueles ratos internos, que só saem da toca quando cutucados ou provocados. Até que o faro nos encontre e nos salve. Ou esconda de vez.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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