Admirável mundo novo do samba

Tornou-se lugar comum dizer que o novo sempre assusta e causa incertezas

É o que no momento está acontecendo no mundo do samba. A Liesa – Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – anuncia que as finais para a escolha dos sambas-enredo para o próximo Carnaval serão por meio de um programa a ser produzido pela TV Globo, que será apresentado nos sábados durante o mês de outubro.

Embora há alguns meses já se comentava sobre esta possibilidade, a polêmica surgiu agora, após uma reunião plenária da Liga realizada na última segunda-feira.

O jornalista Anderson Baltar, do site Rádio Arquibancada, assegura que fontes presentes na reunião disseram que embora os programas estejam previstos para irem ao ar em outubro, eles serão gravados em setembro na Cidade do Samba. A emissora alega não ter condições de transmitir as finais ao vivo e optou por fazer programas gravados.

Mas o motivo da insatisfação entre sambistas é que a emissora liberou a divulgação do resultado do samba campeão logo após o término das gravações. Ou seja, quando o programa for apresentado, um mês depois, nada mais será novidade, pois todos já saberão o resultado e até já estarão cantando os sambas nas quadras.

Entretanto, sempre há o outro lado da moeda que precisa ser ponderado. Esta pandemia, ainda presente entre nós, virou tudo de cabeça para baixo e afetou também profundamente o mundo do Carnaval. Como dizia o poeta, “nada será como antes”.

Aquele sistema antigo de disputa com quadras lotadas, uma grandiosa final, que movimentava ruas em torno parece que acabou, pelo menos este ano. As disputas se deram em ambientes fechados e vazios e a maioria das agremiações optou por fazer apresentações com lives pela internet. A entrada da Globo nesse jogo é algo totalmente inusitado.

Os que se sentem decepcionados com a decisão de permitir a divulgação antecipada dos resultados têm certa razão. Isto considerando ainda o cenário sob o antigo sistema pré-pandemia. Alegam que as disputas e a escolha final fazem parte de um ritual caro às escolas, que não pode ser abandonado em troca de uma eventual grande audiência em rede nacional da maior emissora de TV do país.

Por outro lado, as escolas de samba também veem nessa exposição nacional a possibilidade de “furar a bolha ” e de recuperarem um público perdido. É fato que o desfile das escolas de samba já não atrai tanto as pessoas, nem arregimenta torcedores como ocorria até os anos 90.

Enfim, eu prefiro imaginar que vivemos uma fase de transição. As escolas de samba são entidades dinâmicas e precisam se adaptar para não morrerem. O cancelamento do último Carnaval,  mais que necessário por uma situação de saúde pública, foi um duro golpe para as escolas de samba, que tiveram suas atividades paralisadas por mais de um ano.

Desde então, novas formas de viver o samba estão sendo experimentadas. Apresentações virtuais, lives e agora esta inédita final de disputa de samba via Globo. É um mundo novo se abrindo à nossa frente. Vamos ver no que vai dar.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e