A Velha Guarda do Império Serrano

Na última coluna escrevi sobre as velhas guardas das escolas de samba e a importância que elas têm na preservação histórica, principalmente no resgate da memória musical das agremiações. Quando a maior parte dos grandes compositores das escolas de samba compôs, não havia a facilidade tecnológica atual, na qual um simples telefone celular pode gravar facilmente. Na época de grande parte desses antigos sambistas não havia acesso a gravador e tão pouco fita cassete.

Por isso as velhas guardas musicais são tão valorizadas e desempenham este importante papel. Dentre estas, sem dúvida, uma das mais importantes é a Velha Guarda da Império Serrano, uma agremiação que têm historicamente uma das melhores alas de compositores do país, sendo que dela fez parte o maior compositor de samba enredo de todos os tempos: Silas de Oliveira. Além dele, nomes como Dona Ivone Lara, Mano Decio da Viola, Mestre Fuleiro, Nilton Campolino, Tio Hélio dos Santos, Zé Luiz, Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Aniceto do Império, um dos maiores improvisadores de Partido Alto que já se conheceu. Vale lembrar que o morro da Serrinha é o verdadeiro reduto do Jongo no Rio de Janeiro, desde os tempos de Vovó Tereza e Vovó Maria Joana.

A primeira formação da Velha Guarda musical do Império data do início da década de 1980, quando Jorginho do Império, já um cantor de sucesso e filho de Mano Décio da Viola, incentivou o grupo, que já se apresentava costumeiramente na quadra, a participar de um show em sua companhia na Sala Funarte Sidney Miller. A apresentação tornou-se um grande sucesso de público e crítica, o que a fez prolongar-se por várias semanas. Este show foi inclusive gravado e tornou-se o primeiro disco lançado pela Velha Guarda do Império. Nessa formação inicial participavam Nilton Campolino, Mano Décio da Viola, Carlinhos Vovô, Mestre Fuleiro, Sebastião Molequinho, Tio Hélio e Dejanira.

Devido a idade avançada e a saúde precária de alguns, esta formação se dissolveu. Nos anos 2000, uma nova formação revigorou a Velha Guarda Imperial, já com Wilson das Neves, Ivan Milanez, Fabricio, Cizinho (ex-mestre-sala), Tuninho Fuleiro, Zé Luiz, Capoeira da Cuíca, Silvio e as pastoras Lindomar, Tia Balbina e Tia Nina. Esta formação lançou, em 2006, um magistral CD pela gravadora Biscoito Fino, com arranjos de Paulão Sete Cordas, músico de Zeca Pagodinho, que resultou em registros de verdadeiras pérolas da Serrinha.

Fazem parte desta coletânea obras como Império Tocou Reunir (Silas de Oliveira/Dona Ivone Lara), Não me Perguntes (Mestre Fuleiro/Dona Ivone Lara), Menino de 47 (Nilton Campolino/Sebastião Molequinho), A Humanidade (Aluisio Machado), Obsessão (Osório de Lima/Mano Décio da Viola), Cuidado Vovó (Tio Helio/ Nilton Campolino), Egoísmo Demais (Carlinhos Vovô), Serra dos Meus Sonhos (Carlinhos Bemtevi), Som Imperial (Avarese). Quem quiser constatar e se deliciar com boa música, só procurar o disco nas lojas ou então uma rápida busca na internet, onde algumas dessas obras podem ser ouvidas.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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