A vassoura, a vizinha e os delírios de calçada

Quando uma vizinha sua tem uma vassoura de piaçava como mascote

Pensei em fazer hoje um texto reverenciando São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais, que defendeu a inclusão deles, de alguma forma, nas missas católicas, além de ter sido na igreja dele que me casei.

Mudei o foco e voltei a pensar numa mascote digna de ser comentada hoje, que não fosse comum e me lembrei de um fato corriqueiro nos meus dias, que pode ser também o de outras outras famílias: a vizinha fofoqueira de vassoura na calçada. Pois bem, tenho uma vizinha, a qual não tenho o mínimo apreço, por ter sido ela que mandou podar meu cedro, entre outras coisas; aquela que faz barulho, barulhinho, barulhão.

A vassoura amiga de todas as horas

Essa vizinha, coitada, é viúva há pouco tempo, não tem muitas habilidades além de costurar pra fora, mas uma delas, sem sombra de dúvida, é a conexão que tem com a vassoura de piaçava e a calçada. Aconteceu algo na rua, tem alguém falando alto, parou um caminhão na rua? Lá está ela e a vassoura em punho, varrendo compulsivamente a calçada até que descubra o que aconteceu, arrancando as folhas e colocando-as num saco de lixo, como se ela guardasse a sete chaves e para si as notícias da rua.

Imagine essa mulher com um aspirador ou um soprador de folhas na garagem? As notícias poderiam correr para outras casas e ela ficaria livre para dar um upgrade, usando um rodo, um pano de chão ou qualquer coisa que resolvesse melhor sua causa perdida.

Sra. Kravitz espionando a vida alheia
Sra. Kravitz espionando a vida alheia

Você saberá, se a calçada dela estiver impecavelmente limpa ou não, se o fato foi muito sério. Se sobraram folhas, a coisa não foi assim tão importante. Se ainda não foi solucionada de imediato, ou se tem uma movimentação fora do normal, a vassoura continuará agindo, até que se saibam de mais detalhes. Agora, se a calçada do vizinho dela também está varrida, a coisa foi feia, ou complicada demais para que ela descubra só com uma piaçava em mãos.

Talvez ela tenha adquirido uma síndrome, a de Sra. Kravitz, do seriado A Feiticeira, sem o marido Abner e sem uma feiticeira na casa ao lado para que ela possa delirar tranquilamente.

Talvez essa pessoa tenha mesmo que varrer seu subconsciente todos os dias, até o dia em que a faxineira chega, essa sim, varre a calçada. Nunca com a vassoura de piaçava – a dela – pra que seus segredos não caiam em mãos sujas. Ou que caiam ralo abaixo. E sem folhas no chão, que folha solta não dá notícia, só sujeira.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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