A vacina e o Zepelim

Como num palco, Geni surge imponente para salvar seu povo dos males do comandante do Zeppelin que insiste em descer à terra e infectar a humanidade

E o carnaval já acabou sem mesmo ter começado. Essa é a sensação que eu tenho, pois segui a risca o isolamento nesse período e não saí da casa, aliás, não tenho saído faz um tempo. Ainda bem que tenho máquina para cortar meus poucos cabelos. É verdade, mesmo para mim que quase não tenho, se deixar crescer fica muito estranho. E por falar nisso, acho que está na hora de cortar novamente.

Mas voltando ao Carnaval, esse ano ele ficou muito parecido com a famosa viúva Porcina, interpretada pela atriz Regina Duarte, na novela Roque Santeiro, de 1985 na Rede Globo. Na ocasião ela era a “viúva sem nunca ter sido”, uma referência a ser reconhecida como a viúva de Roque Santeiro, personagem vivido pelo saudoso José Wilker. Na trama de Dias Gomes, ela nunca havia se casado com o Roque. Por motivos escusos, ela se passou a viúva, pois assim a história de Roque ganharia mais veracidade.

Depois da introdução, um pouco grande, mas pelo contexto acho que valeu a pena, volto a falar sobre esses quatro dias de folia invertida. Lembro-me de minha adolescência e minhas viagens e acampamentos. Eram a forma de nos expressarmos e desejarmos a liberdade. Poder viver intensamente durante uma semana sem qualquer amarra ou olhares mais críticos. E nesse momento nos damos conta de como ser livre é importante. O sol abraça o peito e as ondas lambem as pernas, como já dizia Lulu Santos.

E é justamente nesse momento que percebemos que a liberdade sempre dependeu apenas de nós mesmos. Bastava deixar seguir o fluxo, fazer a coisa certa e ter a paciência dos monges. Acho que a nossa liberdade nunca foi tão desejada como nos dias de hoje. E não porque nos vemos aprisionados por alguém ou algum sistema, mas sim, por uma esperança.

Nós a perdemos em 2020 por conta de um vírus que teima em nos fazer companhia e não quer nos deixar em paz. Sabe aquela visita que chega na hora que você está pensando em sair. É exatamente isso, estamos presos com essa visita inoportuna que não quer ir embora. E não adianta você colocar a vassoura atrás da porta como nossa vó fazia, pois ela tem o “respaldo” da família e amigos que não percebem o quão mal essa visita nos faz.

Enquanto uns fazem de tudo para que o “Zepelim” siga sua viagem e leve esse vírus para bem longe, outros não se importam com o sacrifício feito pela “Geni”, nessa luta entre a vida e a morte. É mais ou menos isso que estamos vivendo. Achei que a música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, retrata bem o que estamos vivendo. O mal chegou e todos se desesperaram, buscaram ajuda em várias frentes. Na saúde, na política, na fé, em todas as possibilidades. E de repente chegou a nossa Geni, a nossa salvação, a vacina. Ainda que em fase de testes. E foi o suficiente para que muitos a enaltecessem e agradecessem aos cientistas que em pouco tempo acenaram com a nossa salvação.

E começou a vacinação e com ela a sensação deque tudo voltava ao norma. Que engando. Ainda estamos longe de um final feliz. E com a falsa expectativa às ruas novamente ficaram cheias. Aglomerações e festas. E as pessoas que se cuidam e se isolam a fim de fazer a sua parte acabam por se transformar em presas fáceis de uma doença cruel. Nesse momento, o povo saiu às ruas e com a alegria de que tudo estava resolvido voltou a fazer chacota, ignorar o perigo, exatamente como na música de Chico, onde Geni é descartada logo depois que consegue expulsar o comandante e seu Zepelim.

“E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado”

É assim que podemos retratar esse momento, um Zepelim que insiste em ficar e levar o máximo de pessoas para uma festa sem volta. Nossa Geni, apesar de ainda não ter a confiança de todos, busca ajudar a manter todos aqui, juntos e continuando suas histórias. Mas parte desse povo que a Geni tenta salvar prefere a luxúria e acaba levando a população para um caminho que pode não ter volta. Está na hora da virada, esse momento que o carro alegórico sobe aos céus e se perca nas nuvens e o povo, esse sofrido e escaldado possa enfim, gritar que venceu a batalha.

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e