A teocracia retrofuturista de ‘‘A Bússola de Ouro’’

O Vaticano condenou o filme, tachando a obra de anticristã. Segundo o Vaticano, o longa-metragem promove a ideia de um mundo frio, sem Deus e caracterizado pela desesperança

O enredo de ‘‘A Bússola de Ouro’’ (2007), de Chris Weitz (‘‘Lua Nova’’ – Saga Crepúsculo) decorre num mundo paralelo, em uma teocracia retrofuturista onde a energia vem do âmbar, as viagens são feitas de balão e zeppelin (um tipo de aeróstato), há ursos polares inteligentes que governam Svalbard (um arquipélago norueguês do ártico), e a alma de cada humano tem um equivalente animal chamado de ‘daemon’.

Na época do lançamento, um fato levou ao desespero certos católicos do planeta não foi a (falta de) qualidade do filme, e sim uma instituição que aparece na obra escrita e no longa, o ‘‘Magistério’’. Na obra de Philip Pullman, ele é descrito explicitamente como uma igreja poderosa que atua na intenção de controlar e cercear o livre pensamento dos habitantes de um mundo paralelo ao nosso.

Um editorial publicado pelo G1, em 25/12/2007, destacou que a polêmica surgiu pelo fato de que, nesse ambiente imaginário, o poder está nas mãos do Magistério – uma ordem religiosa que sufoca a individualidade e controla as almas das crianças, provocando a revolta da pequena Lyra Belacqua (vivida pela atriz Dakota Blue Richards), possuidora da bússola dourada que dá nome ao filme e que contém a verdade suprema.

Ainda, em 2007, Lais Cattassini, do Cinema com Rapadura descreveu que “o chamado Magistério é o responsável pelo grande debate em torno da história. Com características claramente religiosas, os sacerdotes que representam essa organização de poder não medem esforços para dominarem o pensamento da população. A polêmica gira em torno do chamado “Pó”, uma substância secreta que, em teoria, liga homens, “daemons” e outros mundos, paralelos ao nosso”.

Em colaboração à Ap, Christy Lemire enfatizou que “a respeito da polêmica sobre os escritos de Pullman serem anticristãos, e de que “A bússola de ouro” instiga o ateísmo em crianças maleáveis e inocentes – qualquer referência a religião é totalmente vaga e aberta a interpretações. O mal que tenta manipular a mente dos jovens não é nenhuma igreja específica, mas sim o ensino autoritário e imposto da doutrina religiosa”.

Segundo Lemire, o filme é provavelmente bastante assustador para muitas crianças, com temas como totalitarismo e controle da mente; os adultos, por sua vez, podem achar difícil levar o filme a sério, apesar da seriedade a que o filme se propõe.

Sobre o Magistério:

O Magistério é uma união de vários órgãos de influência religiosa, que juntos representam a Igreja Católica no mundo de Lyra (a protagonista do longa-metragem). O Magistério, entretanto, é muito poderoso e influente. Antes de morrer, o Papa João Calvino moveu a sede do Papado para Gênova, e criou o Tribunal Consistorial de Disciplina, fazendo a Igreja possuir um poder político ainda maior. Após a morte do Papa João Calvino, mais precisamente em 1564, o Tribunal Consistorial de Disciplina aboliu o Papado, de onde cresceram vários órgãos, que posteriormente iriam ser chamados de Magistério.

A sede do Magistério ainda permanece em Gênova, e a maioria de seus órgãos são rivais entre si. O Magistério é dividido em vários órgãos, os quatro mencionados na trilogia de livros foram: Conselho Geral de Oblação, Tribunal Consistorial de Disciplina, Sociedade da Obra do Espírito Santo e Colegiado dos Bispos (o mais influente órgão do Magistério).

A Teocracia:

O jornalista Elias Lascoski, do Politize, pontua que em um Estado teocrático pleno, o governo opera sob o argumento de que são ordens divinas. A vontade do povo, em geral, fica em segundo plano se não coincidir com os interesses do sistema vigente. Nisso, em tese, nos países teocráticos a divindade é reconhecida como o verdadeiro chefe de Estado. Na prática, quem ocupa este cargo é um governante de carne e osso que se diz seu representante, descendente ou sua própria encarnação. É o caso do Magistério, em ‘‘A Bússola de Ouro’’ (2007).

Trazendo para nossa realidade, Lascoski frisa que os Estados teocráticos do mundo contemporâneo cultivam princípios muito diferentes dos valores que norteiam a política dos Estados laicos. A fronteira mais visível que separa estas formas de pensamento é geográfica.

Palpavelmente, todos os Estados islâmicos, que é como se autodeclaram os países muçulmanos, monárquicos ou não, têm a teocracia como sistema de governo, como exemplo, podemos citar: Afeganistão, Arábia Saudita, Mauritânia, Paquistão e Irã. A cidade do Vaticano é uma teocracia católica com o Papa Francisco como chefe do governo.

Voltando ao filme, o Magistério é, por sua vez, um Estado teocrático radical nas correlações entre religião, sociedade, lei e política. Governa com mão de ferro, preza pela lei acima de tudo e todos, extinguiu a democracia, controla e censura a imprensa (não há imprensa livre), está em todas as instituições e entidades (públicas e privadas), cerceia a liberdade de expressão e livre-arbítrio da população, persegue, tortura e assassina opositores do sistema de governo.

O Magistério atua como legislativo, executivo e judiciário. Nesta perspectiva, o Magistério é uma alegoria política e crítica direta ao poder da igreja apostólica romana.

Posicionamento do Vaticano e de entidades católicas:

Na época, o Vaticano condenou o filme, tachando a obra de anticristã. Segundo o Vaticano, o longa-metragem promovia a ideia de um mundo frio, sem Deus e caracterizado pela desesperança. Num editorial longo, o jornal do Vaticano l´Osservatore Romano também fez duras críticas a Philip Pullman (que é ateu), autor do best-seller homônimo que deu origem ao longa de fantasia voltado ao público ‘familiar’.

De acordo com a Agência Reuters, foi a crítica mais dura feita pelo Vaticano a um autor e um filme desde a condenação que fez de ‘‘O Código da Vinci’’, de Dan Brown, em 2005 e 2006. O editorial ‘papal’ terminava com a seguintes palavras: ‘‘No mundo de Pullman a esperança simplesmente não existe, porque não existe salvação senão na capacidade pessoal e individualista de controlar a situação e dominar os acontecimentos”.

A Liga Católica dos Estados Unidos, por sua vez, exortou os cristãos a não assistirem ao filme, dizendo que o filme tinha por objetivo prejudicar o cristianismo e promover o ateísmo entre as crianças, para barrar o lançamento organizaram um protesto que focava em boicotar a estreia nos cinemas.

O presidente da organização religiosa, Bill Donohue, chegou a escrever no site da liga católica americana que o filme é uma tentativa de “promover o ateísmo e denegrir os cristãos aos olhos das crianças”.

Na página, a liga pediu aos católicos para que se afastem do filme, porque sabe que ele incitará a leitura da obra original que inspirou o longa. “Pais ingênuos que levam seus filhos para ver o filme podem acabar comprando a trilogia como presente do Natal”, acreditava a organização.

Lançamento:

O longa recebeu críticas mistas (mais para negativas) por parte da crítica especializada, apesar de ter ganhado um Oscar de melhores efeitos visuais e uma indicação a melhor direção de arte, o filme não foi bem em bilheteria, com orçamento de US$ 180 milhões, a fantasia “A Bússola de Ouro”, estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig, decepcionou na estreia nos cinemas americanos.

O filme ficou em primeiro lugar no ranking dos mais vistos, mas teve bilheteria abaixo do esperado, com faturamento de apenas US$ 26,1 milhões. Segundo a New Line, a distribuidora trabalhava com a expectativa de que a produção arrecadasse algo entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões em seu primeiro fim de semana em cartaz. ‘‘Foi um pouco decepcionante’’, disse Rolf Mittweg, diretor de distribuição e marketing da New Line, em declaração feita em 2007.

Divulgação

Daniel Craig, que interpretou o aristocrata Lorde Asriel no polêmico filme, disse ao jornal britânico “The Times” que “existe um direito básico de discutir essas coisas, ainda mais quando se leva em conta como está o mundo. Estamos dizendo apenas que é preciso poder discutir a fé”, afirmou.

Palavra de Pullman:

O autor da obra homônima Phillip Pullman explicou no programa “Al’s book club”, da emissora de televisão americana “NBC”, que manifesta em seus livros sua opinião de que “a religião é melhor quanto mais longe estiver do poder político”.

“Às vezes, as pessoas pensam que se algo for feito em nome da fé, deve ser bom. Infelizmente, isso não é certo”, pontuou o escritor.

Para quem não conhece a trilogia “Fronteiras do universo”, ela é formada por “A bússola de ouro” (1995), “A faca sutil” (1997) e “A luneta âmbar” (2000) – segue a linha das histórias de Tolkien (“O senhor dos anéis”) e C.S. Lewis (“As crônicas de Nárnia”).

O primeiro volume da série foi eleito pelos britânicos, segundo uma pesquisa das livrarias Waterstone, como o terceiro melhor livro dos últimos 25 anos.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

Colunista e comentarista de cinema de alguns veículos de imprensa, atua em dois jornais e em um portal. Paralelamente, é editor da página Cinema e Geografia e colaborador de um site de notícias de Maceió. Atualmente integra o quadro de associados correspondentes da União Brasileira de Profissionais de Imprensa (UBRAPI).

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e