A Pele que Habito

Continuando o caminho da purificação de minhas “heresias cinematográficas” – e também pra tentar atenuar um pouco essa minha mania de ficar estocando filmes-bons-pra-ver-mais-tarde, ontem assisti ao incrível A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar.

Sim, como o filme é meio antigo (se não me engano, 2011), metade do planeta já deve ter visto, mas vamos lá, pois a coluna de hoje é sobre ele. Aliás, não apenas sobre ele, mas sobre uma das artistas plásticas mais influentes do mundo: Louise Bourgeois, mas já, já voltaremos à ela.

No filme, Antonio Banderas vive um cirurgião plástico reconhecido pela comunidade médica, rico, mas com uma vida permeada pela tragédia familiar. Sua esposa teve o corpo queimado em um acidente de carro e, durante a recuperação, cometeu suicídio, atirando-se pela janela. Quanto à filha, após a morte da mãe, desenvolveu uma série de problemas psicológicos e, depois de passar por uma tentativa de estupro, piorou. Resultado: jogou-se pela janela, replicando o último ato da própria mãe.

Mas paremos de falar sobre a família do tal médico e comecemos a analisar as ações do não tão bondoso doutor. A verdade é que, após a morte da filha, ele ordena o sequestro do jovem que teria tentado violentar a menina e este é o verdadeiro ponto de partida para um dos filmes mais bem feitos de Almodóvar.

Em A Pele que Habito, o diretor conseguiu reunir “bagagens” de seus próprios filmes, mas sem deixar aquela sensação de reciclagem. Pelo contrário. Neste filme, Almodóvar revisita não apenas aspectos múltiplos de sua própria obra (planos, tempo narrativo, diálogos), como a obra de Louise Bourgeois (sim, a artista mencionada mais acima). Acho que posso dizer até que, não houvesse existido Louise – com suas obras e história de vida – este filme provavelmente não haveria acontecido.

Mas afinal, quem foi Louise Bourgeois? Como dito antes, uma artista que levou para seus trabalhos (pinturas, desenhos e esculturas) inúmeros aspectos de sua própria vida. Nascida em Paris, foi chamada, por algum tempo, pelo próprio pai de Louis, pois o homem sempre quis um filho. Seu pai tinha uma amante e meio que obrigou a própria família a aceitar a presença da mesma, fato que, aparentemente, resignava a esposa e enfurecia a jovem Louise.

A realidade é que Louise cresceu e traduziu em sua obra toda a opressão sofrida durante este período de sua vida. Aliás, no quarto (cela?) de Vera, a personagem principal em A Pele que Habito, Almodóvar se utiliza de reproduções dos próprios rascunhos da artista plástica, como, por exemplo, o desenho da mulher com uma casa no lugar da cabeça, representando a “despessoalização” feminina. Ilustrando a casa, não como um local seguro e familiar, mas sim um local de aprisionamento e silenciamento. Além disso, assim como a obra da artista, o filme coloca em foco o gênero e a desconstrução do mesmo, bem como a real inversão de valores.

Filme tocante e muito bem feito, no qual todos os personagens “vestem” as peles fornecidas por Almodóvar e este, cobre-se, por completo, de Louise Bourgeois. Aliás, vendo o filme até o finalzinho dos créditos, está lá uma singela dedicatória do diretor à Bourgeois, dizendo que além de inspirá-lo e emocioná-lo, a artista e sua obra “salvaram” a personagem Vera.

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