A pandemia da imoralidade e dos maus costumes

Os brasileiros vêm padecendo com os males acarretados pela miséria superlativa desde épocas remotas

Independente do grau de erudição e das preferências ideológicas de cada um, o povo brasileiro é ciente de que a injustiça é uma constante na realidade social do país. Verdade seja dita, o Brasil jamais teve êxito na supressão deste infortúnio.

Os brasileiros vêm padecendo com os males acarretados pela miséria superlativa desde épocas remotas. A nação, que sofre também com a indolência da esfera política, tornou-se pobre de uma forma tão drástica que essa maldição já extrapola os limites da órbita financeira. Por conta das desigualdades advindas da inexistência de reformas públicas — sobretudo a fiscal e a agrária —, o Brasil ocupa o sétimo degrau no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no tocante à pulverização de direitos fundamentais e acessibilidade por intermédio do parâmetro utilizado no Coeficiente Gini. Em síntese, todos os objetos que possibilitam a edificação de uma sociedade profícua estão ausentes.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 25% da população sobrevive em condições precárias, sendo que 1/16 da mesma encontra-se justaposta nas camadas da extrema pobreza. Convertendo em números reais, isso significa algo no patamar de, aproximadamente, cinquenta e três milhões e catorze milhões de pessoas. Sob a ótica do recenseamento, a proporção média é de um brasileiro — completamente — abandonado a cada seis habitantes.

No que tange à concentração de renda, o Brasil ultrapassa nações amplamente conhecidas pela vasta quantidade de grã-finos por metro quadrado, vide Emirados Árabes Unidos e Singapura. Aliás — e para desgosto da corja neoliberal estúpida e presunçosa —, mais de 80% das residências do famoso Tigre Asiático pertencem ao Estado e são fornecidas aos cidadãos pelo Governo. A cidade insular restaurada pelo saudoso Lee Kuan Yew ainda detém um Fundo de Riqueza Soberana maior do que seu Produto Interno Bruto (PIB) nominal.

Regressando ligeiramente ao Oriente Médio para que o tema referente ao acúmulo patrimonial hiperbólico não se dissolva, o Qatar é o único país acima do Brasil no quesito de renda centralizada, e por uma diferença menor que 1%. O zênite do estrato brasileiro é representado por meia dúzia de famílias concentrando um aporte tão descomunal que necessita reunir metade dos bens da população a fim de ilustrar tais recursos que a coletividade produz e que terminam escamoteados pelas oligarquias.

Mais de 2/5 do PIB nominal brasileiro está subjugado pela aristocracia que determina o comportamento nacional em um sentido macroscópico. A desigualdade salta à vista novamente quando se verifica o lote menos abastado deste renque contraindo montantes — e sem atividade laboral fidedigna — que transcendem o salário mínimo efetivo convencionado há décadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) mediante o preço da cesta básica de alimentos. A declaração não possui lacunas uma vez que as pesquisas indicam que 50% do povo subsiste com um estipêndio inferior à R$ 14 por dia. Multiplicado em trinta, não reflete sequer a esmola que os Poderes da República Federativa do Brasil tiveram o desplante de batizar como “auxílio emergencial”.

As injustiças no Brasil atingem os legalmente incapazes com mais virulência, isto é, as crianças; os idosos e os com debilidade física e/ou mental. Também lesa uma gama de minorias (exceto a dos banqueiros e megacorporativistas), sem esquecer das mulheres, logicamente. A cada grupo de dez pobres, essa gente supracitada corresponde a oito. Todavia, a discriminação; os impasses que nublam as oportunidades e o descaso generalizado para com a autodeterminação do povo não resultam de um casualidade banal. Tantas desgraças seguem assombrando os brasileiros porque as mesmas configuram um plano de exclusão social meticulosamente arquitetado. Na atual conjuntura, onde as mazelas se expandiram com bastante intensidade devido ao flagelo do COVID-19 — e por culpa da omissão e dos contrassensos do fantoche histriônico alojado no Poder Executivo Federal —, não faltam evidências que corroboram essa terrível e indecente concretude.

A partir do momento em que o pandemônio infectológico trespassou o Brasil, uma imensidão de desfalques foram rapidamente iniciados em diversas áreas. Com a bênção da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o cenário também permitiu que uma batelada de companhias invadissem o mercado para ofertar testes instantâneos de custos elevadíssimos e credibilidade suspeita. E além do extravio de verbas na saúde e de materiais clínicos, uma pletora de bandalhos surgiu dos esgotos da improbidade feito artrópodes com o discurso mendaz de “livre concorrência”, objetivando superfaturar o valor dos equipamentos terapêuticos — alguns inadequados e/ou com sinais de má conservação.

Como se todos esses desarranjos maquinados pela cleptocracia não fossem suficientes, o Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou notas oficiais a respeito de uma auditoria que identificou cerca de 620 mil indivíduos cadastrados na rede da Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (DATAPREV) recebendo o coronavoucher de maneira indébita. Uma lista com mais de 235 mil “empreendedores” integra este vilipêndio. É difícil escolher um termo que descreva o asco que essas criaturas do limbo provocam ao desviar um subsídio miserável em sua própria origem, mas impede que as parcelas menos favorecidas da sociedade acabem por sucumbir diante da inanição. Apesar do órgão reconhecer o volume de inscritos e a evasão de R$ 1 bilhão, o distúrbio aritmético não é exponencialmente grave frente à importância de R$ 254 bilhões para atender os cinco meses de arrimo.

Não obstante, o fato é o que interessa: centenas de milhares de pessoas foram acusadas de cometer a pior das imoralidades: litigar, de modo acintoso e desnecessário, o embolso de uma cifra equivalente à 57.4% do piso salarial brasileiro com cidadãos que precisam deste adjutório para comprar mantimentos! Sem dúvida fazem parte do curral de infradotados que bradam frases de efeito como “não existe almoço grátis” e/ou “pela moral e pelos bons costumes”. Filhos da Cloroquina; netos da Terra Plana e descendentes da Hipocrisia!

O panorama contemporâneo que reverbera a desolação brasileira não causa perplexidade aos reminiscentes, posto que o trigésimo oitavo líder do gabinete presidencial jurou que faria uma gestão em prol das elites durante toda a sua campanha eleitoral. Não é à toa que o Brasil enfrenta uma hecatombe sanitária; política e socioeconômica incomparável. Desgovernado e prestando mais atenção aos boatos e maledicências, o país trilha a rota do abismo. As medidas de segurança e higiene a fim de derrotar o COVID-19 vêm se desmanchando através de uma negligência insana. Com 2 milhões de infectados e 77 mil óbitos, a letargia está se impregnando no cotidiano popular — que já se adapta à sandice de observar o espargimento da pestilência e o acréscimo das vítimas fatais como um problema trivial.

Por mais que haja latência, as nuvens que pairam nos horizontes do Brasil irão se converter em tempestades brutais. Isso potencializará os estragos; as imolações e os prejuízos. Contudo, essas ocasiões são as melhores para que uma sociedade honrada demonstre a sua integridade. No entanto, os canhões arcaicos da trapaça e da injustiça permanecem alvejando os brasileiros e ratificam, consequentemente, que os preceitos essenciais de uma nação admirável e fidedigna — ainda — não eclodiram neste país. A sanha cultural por vantagens e negociatas é totalmente ligada aos rizomas do atraso.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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