A mesma ladainha. Ou não

Mal começou o ano e já estamos em maio, mês das noivas e dia das mães . Dessa vez, não teremos casamentos, ninguém para jogar o buquê, muito menos festas de domingo com a família toda reunida, nem velórios e enterros cheios de flores. Fico pensando na quantidade de flores que não foram usadas e que irão se tornar adubo por pura falta de opção. Como faremos festas de casamento sem flores, como poderemos encher um vaso de flores para nossas mães? Mundo cruel esse. Na hora da festa, nada. Na hora H, ninguém. Na hora do adeus, só. Nem Nelson Rodrigues pensou nesse roteiro.

Outro dia conversei com minha madrinha no Canadá, ela com 82 anos, viúva há pouco e sem poder ter ninguém por perto, pois o risco de contágio é alto. Perguntei a ela por que não tem um bichinho companheiro, já que sempre gostou de cachorros e gatos ao seu redor e ela me disse, conformada, que não queria mais, que não quer ir embora e saber que alguém ficou para trás. Ninguém fica para trás, nem pense nisso, somos uma família, a distância não nos intimida, pensei. E com animais ao nosso redor, tudo fica mais leve, as esperanças aumentam e vemos sempre o lado bom da vida, da pandemia (será que tem mesmo um lado bom?), da falta de flores e de mais companhia.

Então vi o sol hoje de manhã e, junto com ele, uma revoada de pica-paus, se bem que não sei de 6 pica-paus juntos são mesmo uma revoada. Talvez um arrastão. Mas ficaram todos ali, na árvore por um bom tempo, cantando, berrando, falando. Como não sei falar ‘picapauês’, só olhei, feliz. E aí veio aquela boa sensação de que, realmente, nem tudo está perdido, nem tudo o que passa nos jornais, TVs ou Internet é visto e nem todos os seres vivos leem ou compreendem. E vivem a vida, de boa.

E voltei a pensar em como uma companhia animal cai tão bem na vida da gente. Sim, tem pelos, escamas, babas, barulho, sujeira, bolinhas, papéis, paninhos e mais sujeira. Mas tem também a alegria sem cobranças, a amizade sem culpa, a fidelidade sem tempo. E em tempos como os de agora, em que esperança de dias melhores precisam ser nutridas dia a dia, nada melhor que ter um ouvinte que não se cansa de ouvir sempre a mesma ladainha: quando sairemos de casa, sem máscaras?
Seja qual máscara for.

Por

Jornalista, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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