A manutenção do pistoleirismo bolsonarista contra a imprensa

Quando ingressei no curso de jornalismo na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), há mais de uma década, percebi de maneira quase instantânea como seria árduo exercer o ofício de comunicador social nas glebas do Brasil. A razão dessa premissa encontra-se no fato de que, por via de regra, a população brasileira acredita que as reportagens devem emitir opiniões que rejubilem seus egos ao invés de transmitir a realidade dos acontecimentos com total primazia, retidão e transparência. Essa minha perspectiva foi acentuada no momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) revogou a obrigatoriedade da formação específica para o desempenho das funções relativas à imprensa e segue em multiplicação por efeito das opugnações covardes, ilícitas e maledicentes que o trigésimo oitavo presidente da República Federativa, Jair Bolsonaro, tem praticado vertiginosamente contra os jornalistas de diferentes veículos e segmentos.

É completamente válido afirmar que, no panorama do Brasil contemporâneo, não há indivíduos que busquem depreciar tanto a comunicação social quanto Jair Bolsonaro. O atual inquilino do Palácio da Alvorada — que se vangloria por ter desativado os aquecedores elétricos inexistentes da piscina situada nos fundos do recinto — faz questão de zombar dos repórteres e de menosprezar a importância da apuração fidedigna das notícias para que as mesmas possam circular livremente. Ao optar por videoconferências nas redes (antis)sociais a fim de expressar seus discursos umbríferos, Bolsonaro desmerece o valor do jornalismo e termina se autossabotando, dado que suas próprias considerações não alcançam de modo profícuo o território da República que a Constituição Federal estipula que ele governe sem disparidades como a radioteledifusão em cadeia nacional. Isto posto, a guerra suja dos agentes neoconservadores obtém todos os dispositivos necessários para hostilizar ainda mais a imprensa, pois Bolsonaro e seus acólitos creem na ilusão de que venceram o sufrágio de 2018 sem o auxílio dos jornais e, sendo assim, podem agredi-los com ofensas morais, golpes físicos e bramidos de censura.

Numa época de recessão e pandemia, vastas são as hipóteses ligadas ao futuro do país. Todavia, uma ação é incontestavelmente certa: a horda de fanáticos neoliberais que Jair Bolsonaro controla irá, junto com o seu ídolo, garantir que a conflagração anti-reportagens perdure. É nítido que não haverá coadunação porque os dois hemisférios se aproveitam desse choque incessante. É muito provável que o superintendente da União mantenha o seu temperamento caótico pois ele se beneficia com isso retificando o fascínio da sua legião de adoradores enquanto permanece em destaque nos maiores canais de divulgação e nubla os terríveis problemas que continuam maltratando o povo brasileiro. A imprensa, por sua vez, enxerga a chance derradeira de recuperar a liderança, o prestígio e a credibilidade de outrora perante a nação e, consequentemente, endossar os motivos que ratifiquem sua preservação. Se alguém estiver supondo que os jornalistas e os informes verídicos em geral terão a simpatia de Bolsonaro e de seus lacaios mais adiante, recomendo que descartem tamanha utopia antes que as frustrações intercorram.

Estando como dirigente do Poder Executivo, Jair Bolsonaro não deixará de perseguir os componentes da imprensa que ousem publicar as defraudações de sua gestão esquálida. Aplicou, durante seu primeiro ano à frente do Palácio do Planalto, uma série de medidas provisórias e decretos com o intuito de prejudicar diversas instituições da esfera jornalística: tolheu uma parcela significativa do financiamento para essas organizações; aboliu diretrizes que exigiam os levantamentos contábeis dos jornais; desfez as cláusulas que asseguravam a indispensabilidade de anúncios sobre uma gama de modalidades referentes às licitações de células estatais e também mirou o extermínio da imparcialidade e autonomia da comunicação social brasileira com a tentativa de desregulamentar a profissão. Os setores econômicos do país ficaram simplesmente estarrecidos com essa chuva de despautérios, haja vista que tais barbaridades poderiam devastar cerca de 1/3 do faturamento de uma miríade de negócios para além da órbita do jornalismo. Alguns departamentos de notícias, perante as incertezas, resolveram encerrar suas atividades. Não obstante, todos os morteiros acendidos por Bolsonaro foram neutralizados devido às rejeições e arquivamentos que suas manobras receberam do Congresso e dos Tribunais Superiores. O presidente do Brasil almejou um novo látego por meio de editais que não incluíam a participação de certos periódicos em ofertas de renovação das assinaturas digitais utilizadas pelo Governo Federal em portais de informação, mas desistiu do plano mediante alertas de que tal veleidade é profundamente ilegal. Esses distúrbios venenosos ilustram uma conduta severamente abusiva, porém são efêmeros em virtude do Estado não ser absolutista e menos ainda pautado em leis divinas que não admitem questionamentos. Como já é de praxe, Bolsonaro não logrou êxito em nenhuma ocasião por ter desperdiçado itens políticos e jurídicos sem refletir. É possível declarar que, nesse ponto, os jornalistas estão em vantagem porque o narcisista que se instalou no edifício localizado no renque direito da Praça dos Três Poderes não detém álibis sobressalentes para repetir suas desfeitas através de imposições. Contudo, é um equívoco supor que isso o levará a fazer um pedido de trégua.

É preciso explanar sem tergiversações que Jair Bolsonaro pertence ao grupo dos falsos moralistas pusilânimes que ornejam contra os noticiários e páginas informativas por ter vergonha e medo da verdade. Procura inculpar os jornalistas pelas desgraças que ele mesmo produz com ações obtusas e descaso cabal por uma enxurrada de adversidades pois, em sua ótica desprovida de silogismo ectoscópico, quem é responsável pelo esfacelamento de seu mandato inerte são os veículos que difundem as eventualidades. Vai ao delírio bradando palavras obscenas que têm a conspurcação da idoneidade dos jornais e repórteres como único escopo. Apoiado por sua eterna camarilha de fãs tresloucados e escolhidos minuciosamente para integrar a claque de seu manicômio teatral, Bolsonaro enxovalha os comunicadores ao delimitar um cubículo para que estes ocupem a vários metros de distância, sem invólucro e poltronas; se atrasa intencionalmente e também ordena que os profissionais da imprensa se calem nas entrevistas coletivas habituais a fim de inibi-los e não ter de explicar aos cidadãos do porquê o Brasil não apresenta o desenvolvimento que sua campanha eleitoral prometia de forma intensa. O chefe do Executivo Federal remete, como já ficou óbvio, sua aversão pelo jornalismo equânime aos seus romeiros neopentecostais com o objetivo de provocar uma espiral do silêncio. Isso descreve as agressões hediondas sofridas por equipes de noticiaristas que trabalhavam em Brasília na cobertura de uma manifestação torpe e inconsequente fomentada por analfabetos políticos destituídos de empatia pelas vítimas do COVID-19 logo no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Bolsonaro, aliás, não reprovou o comportamento selvagem desta turma de bárbaros; ele repreendeu a categoria que, acordo com seus termos, “estão indo longe demais” e que “as multidões são incontroláveis”. São apreciações desse nível que atestam o caráter jurássico e imundo do bolsonarismo diante da sociedade, tendo em conta que a violência gratuita é mais nobre para estes crápulas do que a exposição de seus conceitos.

É correto alegar que essa postura não é apenas dissoluta, mas também insciente. Um sujeito embutido no cargo político mais controverso do Brasil deveria saber, no mínimo, que estabelecer um conflito pedante contra o jornalismo é tão inútil quanto lavar roupa com óleo diesel. A avalanche de notícias espúrias que vieram à tona com os Protestos de Junho de 2013 e que o governo de Jair Bolsonaro potencializou é a substância capaz de regenerar o brio da imprensa. As reportagens profissionais, que investigam e transpõem a semiótica dos casos em uma multitude de formatos, são indícios de que a comunicação social não é boato, passatempo ou delito. Elas dispõem a retorsão congênita do material podre e invernacular elaborado pelas militâncias cibernéticas do bolsonarismo e de outros sofistas.

A comunicação social evolui conforme aborda os paradigmas sem a menor condescendência, e Jair Bolsonaro reclama exatamente da ausência de remissões da imprensa para com seus dislates. Venera a insanidade e pressiona o jornalismo a defendê-lo como faz a sua mídia chapa-branca. Ao observar que suas preces não serão atendidas jamais, Bolsonaro começou a vociferar ordinariamente contra os noticiários, rotulando todos os opositores como facínoras e espiões comunistas. A espetacularização que tem promovido no ciberespaço destrói a liturgia de suas incumbências como governante da instância superior do Executivo brasileiro; lhe afasta do cotidiano em que os habitantes do Brasil estão inseridos e acaba subtraindo o respeito justaposto à imagem do presidente da República. Seu dispêndio para cativar a atenção do público é bem maior do que seria no âmbito convencional — e o resultado emergente é uma audiência três vezes inferior à média.

Que seja dito de passagem, essa cruzada virtual que o bolsonarismo tem operado contra a imprensa estimula os jornalistas que se preocupam com as turbulências da modernidade líquida — e que não configuram o renque dos vassalos de políticos mentecaptos e demagogos — a prosseguirem em suas missões laborativas pautados no condicionamento ético do famoso “Quarto Poder”. É sinal de que estamos agindo com destreza e honrando nossas certificações; juramentos de formatura; carteiras de trabalho e a insuspeição que o Brasil nos oferece para informá-lo sem paralogismos. A atribuição do jornalismo é evidenciar as conjunturas em sentido isonômico; nunca se restringiu à bajulação de criaturas. Quem repudia o seu fundamento são os hipócritas e os marginais que ambicionam transmutar a deontologia da comunicação social por execração ao que é verdadeiro.

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Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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