A magia do Carnaval está no ar

É de novo Carnaval e sempre nessa época, independente da situação, os problemas são momentaneamente esquecidos ou empurrados para a frente e o bom astral predomina.

Para os que não curtem a folia, é hora de viajar, descansar, fugir da rotina, ir para um retiro espiritual ou até ficar em casa com a família. Ninguém fica imune a esses dias. É parte da cultura do país.

Atualmente o carnaval se transformou. Lembro que nos tempos de criança havia um cenário de festa diferente, que agregava gente e motivava famílias a participarem. Não havia um dogmatismo religioso tão radical.

Os pais faziam questão de vestir os filhos com fantasias. E as próprias fantasias faziam parte do universo infantil. Eram comuns os bailes de matinês em clubes e nas ruas, onde as crianças participavam como parte das brincadeiras dessa fase da vida. À noite, entravam em cena os adultos e as ruas exalavam alegria e felicidade.

Aliás, as fantasias de carnaval eram um capítulo importante, pois elas são o que mais expressavam o caráter subversivo e de inversão da folia. Havia algumas assustadoras, verdadeiramente temidas pelas crianças.

Entre as piores haviam as de diabo, toda vermelha com sua máscara de língua comprida e olhar arrepiante,e a de morcego, todo de preto e com orelhas compridas. Ainda horríveis eram as de caveira, as de morte e carrasco. Muitas crianças corriam quando avistavam esses personagens, outras choravam desesperadamente e precisavam ser acolhidas pelos pais.

Mas também haviam as fantasias divertidas, jocosas e românticas. Cabeção, árabe, pierrô, colombina, odalisca e os bate bolas, que sobrevivem ainda hoje e são sucesso, formando turmas pelos subúrbios do Rio de Janeiro.

Uma das fantasias mais comuns e populares era a de “Pai João”, conhecida como gatinha. Eram simples, confeccionadas em casa. A máscara era uma fronha branca de travesseiro, luvas, camisa social, calça comprida e tênis também brancos. Faziam a diversão da criançada.

Repentinamente nesses dias, surgia um bloco de sujo, organizado espontaneamente por moradores, onde proliferavam homens travestidos de mulher. Conforme esses blocos passavam as pessoas iam entrando no samba e uma multidão acabava se agregando.

As ruas das cidades eram decoradas e iluminadas especialmente para esses dias. O coreto das praças (sim, havia coreto nas praças de antigamente) recebiam as bandas que animavam o público com sambas e marchinhas de sucesso.

As escolas de samba já eram a grande atração, mas haviam também os grandes blocos como Cacique de Ramos, Bafo da Onça, Boêmios de Irajá, entre outros. Sem esquecer, também, os clubes de frevo e as grandes sociedades, que não existem mais.

Sem saudosismo, a verdade é que o mundo mudou e a sociedade adquiriu outros valores.

O Carnaval continua com muita força e participação popular, mas diferente. Os blocos de rua ganharam força e organização profissional, as escolas de samba continuam sendo a principal atração. Porém, de alguns anos para cá vem havendo um movimento de desconstrução do Carnaval por vários motivos, inclusive religioso. Há contestação política sobre a necessidade de investimento do poder público na festa.

Entretanto, isto não é novidade, pois desde os primórdios o Carnaval sempre foi contestado por uma elite temerosa com a turba que saia às ruas. Só sobreviveu e ganhou força porque como não pôde ser contido, precisou ser controlado por quem detém o poder.

Por

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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