A insustentável leveza de amar animais

Sejamos justos, cada ser nasceu de uma mãe diferente, em um lugar diferente, por que cargas d'água devemos ser todos iguais?

Como a maioria sabe, tenho 3 gatos, antes eram 4, ou 5, ou quase 10. Tudo dependia do clima. Mas, efetivamente, tinha 4. Algumas trocas de guarda, tristes, algumas baixas, mas faz parte. O fato é que, diante desse pelotão, há a democracia ampla geral e irrestrita. Até a hora em que o macho alfa se apresenta. Num primeiro momento, enquanto eram os gatos de rua que vinham na minha janela pro rango a qualquer hora, havia alguns mais proeminentes, mais republicanos, mais mandões. Nada de ditadura, só um silêncio mais forte se destacava.

Ralph, meu querido branco de olhos azuis, minha alcatra, pelo tamanhão de meia arroba que tinha, era o mais respeitado. Numa briga, era só um olhar profundo e quieto – lindo por sinal – que tudo se acabava. Um lorde viciado em requeijão. Viciou os outros daqui. Amado até seu último suspiro. Uma salva de palmas para ele se faz necessária.
Tinis, o primeiro, era o meu vereador de língua macia, foi quem trouxe toda a galera, ele era tipo o Manda-Chuva da TV. É o modelo da foto aqui da coluna. Tinis era o popular, brincalhão, mas não queria conversa com muitos. E eu fui a escolhida para ser sua almofada permanente. Logo depois, a Jujuba, de olhos tão azuis como a balinha, é bipolar e não acha que é gato e não gosta deles. Talvez ache que é um Gremlin. A ser estudada pela Nasa talvez. Por via das dúvidas, ninguém ousa molhá-la à noite. Mas foi abandonada dentro de um capô de Monza, então teve N motivos para se tornar uma gatinha azedinha. Perdoada!

Eis que chegaram os dois irmãos, que poderiam ter se tornado Irmãos Cravinhos por terem vindo de um lugar inóspito e totalmente cruel, mas vieram em paz, pedindo socorro. Novinhos, ainda não tinham esse péssimo hábito de gato de rua. Vieram e aqui ficaram. Suellen, a irmã mais velha, é a gata mais cachorrinha que conheço. Caçadora, nos segue a toda hora e sempre à nossa volta, mal sai de casa. E quando chega, vem sempre com um presentinho assustador: um lagarto ou uma andorinha.

Suellen, de olho em alguma coisa comestível, como sempre

Chaplin, ah o Chaplin! O irmão imaturo. Como todo macho que se preze, espera as mulheres darem o aval pra poderem sair. Preciso avisar que moro num lugar em que carros quase não passam, todos conhecem todos e eles ficam sempre por perto, com suas manias, seus horários, sua rotina.

Saiu, mudou, mexeu? Por quê? Cadê aquela pedra que estava ali ontem, do lado daquela folha amarelada, que ficava escondida atrás daquela pedaço de cimento, em cima da palha seca da sua calçada com terra molhada? Gatos são inexplicavelmente cOmpanheiros, com O maiúsculo, que gato não é ignorante. Desde que suas regras sejam cumpridas e aceitas, sua companhia é grata, seu pelo é macio, suas unhas não doem, sua mordida é forte. E só. Tá oquei?

E aí vem o bando canino, hoje de 3, mas tivemos mais. Muitos mais. Poderia ficar aqui descrevendo como cada um foi. Cada um com seu caráter, todos com sua vida ganha; mesmo assim, paira um ciúme de não sei o quê. Mas existe. Um surdo, quase cego e sem alguns dentes, outra velhinha, mas acha que ainda é gatinha, no sentido de se achar a última bolacha do pacote. O que ela se esqueceu é que ela mesma comeu o pacote de bolacha. Ela, a Loira, deve ter uns 546 anos de lucidez. E por último o Barbosa, o refugiado, o sobrevivente, o medroso barulhento. É também o mais amigão, esse sim, companheirão de olhos desenhados e olhar brilhante.

O fato é que cada um deles têm uma personalidade, um jeito, um olhar, basta entendê-los para amá-los. É só sentar e ver. Em silêncio a vida anda mais livre. E feliz.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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