A humanidade não tem salvação longe da ciência

Ciência não é um item mágico e sobrenatural, todavia é o único instrumento efetivo que o ser humano possui para solucionar os impasses que atormentam sua existência

Por mais incrível que pareça, o afluente de convulsões que viabilizaram maneiras do patógeno SARS-CoV-2 acabar se transformando em uma depressão sindêmica de proporções globais também resultou em uma compreensão indubitavelmente maior daquilo que a ciência representa, bem como fez regressar o otimismo e a insuspeição de diversos cidadãos nas análises e pesquisas técnicas.

Isso é absolutamente esplêndido pois, ao contrário das verdades que não toleram contestações porque utilizam a famigerada “vontade divina” como justificativa, o argumento científico ratifica que não detém controle sobre o monopólio da perfeição ontológica. A ciência jamais escondeu que suas teses possuem o espírito do tempo como substância primária e que tais conceitos devem ser verificados com frequência no intuito de se adaptarem às épocas ulteriores.

É preciso frisar que a ciência não é elaborada de modo individual, dado que nenhum pesquisador desenvolve qualquer material de forma isolada. Ele simplesmente adiciona uma engrenagem no ilimitado sistema da metodologia científica. Diferentemente dos sermões avaliados como leis oriundas do Paraíso, vertentes dogmáticas por essência, as interpretações de qualidade epistemológica são abertamente propensas aos debates e novas experimentações.

Nessa ala dos princípios indiscutíveis surge cada vez mais pessoas com uma terrível dificuldade em aceitar premissas intermitentes, sujeitas às variações. Existe até os bárbaros que se prestam a assassinar ou glorificam uma batelada de injúrias perpetradas contra outros seres humanos por mero questionamento ou desconsideração mediante a incongruência que suas doutrinas refletem com nitidez. Isto posto, é razoável declarar que o núcleo do raciocínio científico é isonômico; revolucionário; sociológico e permanentemente versátil. Já as apreciações de tonalidade mística são arbitrárias; inconcussas; obsoletas e eternamente vitalícias.

Em vista disso, não é de causar perplexidade o fato de que há uma multidão de brasileiros suplicando para que os cientistas apresentem uma solução instantânea a fim de erradicar a sindemia, uma vez que rezar e consultar o horóscopo foram tarefas improfícuas. Agora os incautos desejam que a ciência se manifeste através de um condicionamento religioso e que os pesquisadores se convertam em hierofantes ungidos. Sob esse prisma, logo estarão rogando para que a sociedade colha alimentos industrializados diretamente do solo. Caso ainda não esteja óbvio, os laboratórios não produzem milagres. Apuração científica não é xamanismo.

A dialética sempre foi o elemento que proporcionou meios da ciência evoluir. Para que as chances de acerto se multipliquem, é indispensável que os cientistas preservem a autonomia que faz com que as teses avancem ou retrocedam; examinando os métodos e hipóteses constantemente; equacionando as probabilidades com o objetivo de realizar testes que, se não lograrem êxito imediatamente, buscarão decifrar os enigmas da natureza o quanto antes.

Quem é realmente fundamentado pela ciência não despreza os que se empenharam na árdua missão de localizar os rumos que a sabedoria deve trilhar. A importância destes cientistas não é menos valiosa do que a dos pesquisadores que obtiveram sucesso. As vacinas para exterminar o morbo viral que irrompeu há um ano simbolizam o melhor exemplo dessa afirmação na contemporaneidade. Apesar da oposição estapafúrdia, os antídotos já estão sendo distribuídos mundo afora e os pacientes, em suma maioria, responderam bem aos imunizantes. Essas preparações biológicas retratam uma série de experiências que também incluem as respostas inoperantes, haja vista que o conhecimento na área de imunologia progrediu bastante em função do descarte de silogismos outrora averiguados e qualificados como ineficientes no que tange à abordagem desta intempérie. É assim que a metodologia científica funciona: nada perde o seu grau de relevância.

É por mérito dos cientistas que, muito em breve, iremos abandonar o receio de estar próximo de alguém por suspeitar que todos são vetores de doenças em potencial; voltaremos a confraternizar em parques, bares e restaurantes com nossos entes queridos; poderemos retornar às arenas esportivas, casas de espetáculos, teatros, bibliotecas e cinemas sem o temor de contrair um mal patológico. Não houve intervenção celestial alguma, e sim intercessão científica. Taumaturgos, curandeiros e astrólogos não trabalham em institutos de pesquisa.

Frente a tamanho esforço, como dizer “obrigado” aos pesquisadores? Eis uma gama de sugestões:

• Ordenar aos políticos que apliquem — no mínimo — o quíntuplo da verba atual nas entidades públicas de fomento às ciências; • Reconhecer o valor dos educadores e dos livros, sobretudo os escolares e acadêmicos, posto que a união do professor com os fascículos é irreversivelmente necessária para que a transmissão do patrimônio científico e sociocultural em âmbito nacional e estrangeiro ocorra com primazia; • Aclamando as universidades federais e estaduais, centros de referência em pesquisas qualitativas e análises quantitativas desde o limiar do século passado;

• Combatendo todos os energúmenos que ousam seguir arruinando o país com teorias da conspiração de grupelhos virtuais somadas a uma miríade de falácias lógicas e notícias artificiais que provocam danos incalculáveis às expedições científicas e lançam a educação, a justiça, a saúde e a economia nas profundezas do abismo.

Por

piterson.hageland@oestadorj.com.br

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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