A gleba dos leigos

Na contemporaneidade, todos os indivíduos que não compreendem algo — seja por incapacidade científica ou então por falta de interesse no assunto — são rotulados como “leigos”. Originalmente, este adjetivo possui conexão etimológica com o termo “laico”, oriundo do grego (laïkós) e do latim (laicus) e que retratavam àquelas pessoas que eram contra as lideranças populares. Durante o Período Medieval europeu, também representou o oposto da palavra “clérigo”, isto é, os sacerdotes que formavam o plantel da Igreja Católica Romana.

Com o passar dos séculos, tal expressão acabou superando a órbita dos eclesiásticos e se transformou em um sinal para identificar os tolos em geral, sendo amplamente utilizada com o objetivo de classificar os que estão alheios a determinadas proposições. Os leigos são ingênuos, reducionistas, desinformados e, via de regra, hostis. Eles têm a necessidade de receber explicações da forma mais hialina possível e, não obstante, custam a entender os princípios temáticos de uma série de questões. Aliás, costumam usar como pretexto a máxima de que desconhecem o conteúdo abordado no intuito de fugir de um debate erudito. Terminam, dessa maneira, apelando às crendices pessoais e ao senso comum falacioso em busca de arrematar a conversa. Praticam isso com uma frequência extrema, pois tudo aquilo que propõe um esforço silogístico aborrece os incautos.

Apesar dos pontos nocentes supracitados, os leigos colaboram bastante para que a expansão do raciocínio dos mais clarividentes transcorra de um modo idôneo. Devido ao fato de suas aptidões intelectivas serem rasas e obsoletas, os ineptos fazem perguntas que a maioria das criaturas pensantes não conseguem sequer formular por causa da obviedade que elas retêm. Quem se dedica aos estudos raramente profere indagações banais, até pelo receio de ser taxado como estúpido. Mas voltando aos inscientes, há décadas, por exemplo, que eles não obtêm sucesso em assimilar os motivos das riquezas brasileiras de múltiplas origens — e que escutam falar desde o ensino fundamental — ainda não terem desenvolvido o país mediante o livre-comércio de acordos unilaterais em benefício das nações hegemônicas. Nem mesmo se autointerrogam do por que tais recursos vernaculares são louvados com um entusiasmo superlativo e, no entanto, jamais melhoraram satisfatoriamente a qualidade de vida dos cidadãos. O que se verifica é o contrário: a precarização nacional se agrava conforme a extração destes itens acontece; bem como a parvoíce de entregar o patrimônio social do Brasil às megacorporações estrangeiras, com tamanho dislate sendo usado para justificar a liquidação de uma dívida pública sórdida, indefinida e brutalmente elevada consoante a defluência dos anos.

É provável que os displicentes nunca entendam as verdadeiras razões que fizeram uma pletora de instituições bancárias e entidades industriais não estarem mais sob administração nacional, em sentido absoluto ou parcial. A virtuosidade interpretativa dos leigos é um predicado tão nulo que os impedem de perceber que o arcabouço da nação tem sido expropriado com uma violência terrível, haja vista que todo esse desfalque é intitulado como uma simples venda a fim de demonizar a autoridade jurídica do Estado e difamar o país inteiro através de campanhas surreais que a grande mídia articula para infligir um sentimento de vergonha eterna na população a respeito das idiossincrasias pátrias. Um dos resultados que essa barbaridade produz são as inúmeras farfalhadas requerendo privatizações sem o menor critério — fora as súplicas pela abolição de direitos sociais adquiridos com muito afinco por brasileiros de gerações retroativas.

É por consequência destas síncopes que os leigos, no cúmulo de suas inocências que beiram a puerilidade, não deduzem que o escopo de tantas controvérsias é alvejar os resquícios da soberania nacional e da autodeterminação popular, reduzindo preceitos cada vez mais escassos no Brasil às cinzas. Isto posto, Rogam às divindades para que empresas internacionais assumam o controle dos setores estratégicos porque meia dúzia de crápulas antipovo — e sem preparo técnico algum — publicam nas redes sociais que tal procedimento é a única via que se conecta com o primeiro mundo. Em síntese, os brasileiros são rotulados como incompetentes por uma corja de valdevinos e ainda ratificam este desaforo na medida em que toleram uma gama de estereótipos que os mantêm cristalizados na doutrina de seres humanos de raça inferior. É um vestígio que constata a manutenção do etnocentrismo no país.

No que tange ao cenário da geopolítica transnacional, os ignaros supõem que a miséria do planeta seria rapidamente extinta caso toda a verba destinada ao mercado bélico fosse remetida às organizações não governamentais. Qualquer um com o mínimo de discernimento sabe que nenhuma guilda subvencionada pelos oligopólios do sistema financeiro — que também planeja as guerras — opera no conceito de propagar uma filantropia simétrica mundo afora. Se não aplicassem o dinheiro em demandas militares, iriam desperdiçá-lo com orgias, artigos de luxo e entorpecentes. E como se tantos paradoxos já não bastassem, existem alguns tolos que continuam afirmando que a pesquisa sobre a matriz energética nuclear é um absurdo total, e que um lugar como o Brasil deveria renunciar a estas análises justamente quando o panorama global se desdobra em uma celeuma tétrica para intensificar a exploração de países localizados abaixo da Linha do Equador e transversais ao imperialismo anglo-americano. Todavia, o que se pode esperar dos leigos?!

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Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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