A crise da informação globalizada em uma sociedade materialista

É justo afirmar, em condições sumárias, que o glorificado modelo de capitalismo vigente não passa de mera especulação materialista segmentada em duas formas coalescentes: enquanto uma se concentra na produção de motins a fim de dissolver as unidades nacionais, a outra se empenha na confecção de artigos de luxo para atender elites minoritárias em detrimento de populações inteiras e que acabam cristalizadas no terreno da subsistência.

Desde a reta final do Século XX que muitas nações industrializadas vêm reduzindo seus investimentos militares. Sendo assim, os fabricantes de itens bélicos foram atrás de novos clientes na ala periférica do globo terrestre. Em meados da década de 1990, o repasse de armas para o chamado Terceiro Mundo totalizou quase 30 milhões de dólares, com mais de 90% desses artefatos marciais sendo comercializados pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, isto é, França, China, Rússia, Estados Unidos e Grã-Bretanha. É, no mínimo, absurdamente irônico constatar que os países encarregados pela “segurança do planeta” garantem uma boa parcela do seu desenvolvimento econômico mediante a venda de instrumentos de guerra.

Isto posto, o litígio entre os países da América do Sul — incluindo o Brasil — para figurar neste comitê é simplesmente ridículo, pois não há benefícios reais e práticos oferecidos pelo mesmo às regiões localizadas abaixo da Linha do Equador. Desse modo, é possível notar a expansão violenta de laboratórios de ideias que simulam “departamentos da economia”, ofertando mercadorias defasadas e propostas de submissão, tais como a importação de objetos ultrapassados, intermediação financeira, burocracia em serviços já tabelados (assistência médica, cartórios, divisão de fóruns e afins) e outros, reduzindo assim a capacidade produtiva das nações. Sob esse prisma, a função axial da comunicação tem sido estimular a indústria da propaganda disfarçada de notícia, bem como proporcionar legitimidade à doutrina materialista cumulativa, insaciável por recursos tangíveis e destituída de razões teleológicas. Zygmunt Bauman, pensador contemporâneo já falecido, externou tal adversidade com um rigor impressionante ao longo de suas obras, especialmente em “Modernidade Líquida”; “Amor Líquido”; “A Sociedade Individualizada”; “Capitalismo Parasitário” e “Vida Para Consumo”.

Seguindo o critério há pouco destacado, a ideia de prosperidade no Ocidente vem sendo massivamente difundida como sinônimo de veleidade consumista, onde os seres humanos são instigados a adquirir utensílios fugazes, prejudicando o sentido orgânico da essência. A ostentação tornou-se, de maneira irracional e miserável, o fator mais importante para uma gama de quadros sociais. Tantas divícias acumuladas sem que haja uma noção real do que fazer com todo esse arrimo. Quais são as razões disso? O que se aprende com isso?

Atualmente, a infraestrutura da grande mídia — principalmente a eletrônica — encontra-se justaposta aos sucessivos espetáculos fúteis produzidos e veiculados pela tirania das crenças, reunindo multidões anônimas e despolitizadas, entregues às paixões de um hedonismo amplamente volúvel. Por incrível que pareça, as megalópoles estão viabilizando o regresso do tribalismo proto-alfabético, onde o simples ato de ver ou escutar é interpretado como acreditar. Os casos que englobam a demagogia e o facciosismo nas redes sociais ilustram claramente as técnicas de manipulação: em torno de uma série de eventos lamentáveis, é construído um universo plástico e virtual que se aproveita do exibicionismo e da sofomania na intenção de consolidar o próprio eixo. O reflexo da infelicidade contido nas pessoas por falta daquilo que é supérfluo, elaborado para simbolizar o consumismo deletério, recebeu uma beatificação moral rigorosamente elevada conforme dirigia propagandas com mensagens desenvolvimentistas e filantrópicas repletas de artificialismos. Certas facções e indivíduos, por exemplo, continuam exigindo que as organizações públicas e estratégicas do Brasil sejam abolidas, sustentando o discurso de que nada funciona com a presença do Estado.

Todavia, o país se distingue em virtude de ser um dos maiores produtores e extratores de minérios da Terra, fora os avanços superlativos que realizou no setor energético, como o Programa Nacional do Álcool durante a segunda metade do século passado. Na medida em que centenas de milhões de reais circulam no ambiente publicitário buscando favorecer os agentes causadores destas situações nefastas, o clamor popular já não é capaz de exercer nenhum efeito de cunho direto e positivo sobre os acontecimentos. Isso porque, uma vez que o coeficiente monetário seja a válvula nuclear da corrente dominante, as famigeradas opiniões de “senso comum” serão completamente análogas ao poder financeiro.

Após a passagem de quase toda a imprensa, responsável pela formação do público durante mais de quatrocentos e cinquenta anos, para o ambiente da comunicação eletrônica, que possibilitou a massificação dos veículos de mídia através da radiodifusão, o que começou a importar, acima de tudo, foi a velocidade de emissão das informações e a ressonância que tamanho laconismo poderia acarretar. Os resultados são irrevogavelmente nítidos, seja na área dos negócios ou no descomedimento acerca das características particulares. Em seus livros “Guerra & Cinema” e “Velocidade & Política”, o saudoso filósofo Paul Virilio aborda sobre o rápido declínio da consubstanciação mnêmica, alegando que, por conta da rapidez do processo informativo que se conecta à inúmeras platitudes, algumas esferas sociais aparentam uma letargia que compromete até mesmo a percepção do tempo.

Em “Economia: Modo de Usar” e “23 Coisas Que Não Nos Contaram Sobre o Capitalismo”, o economista Ha-Joon Chang sintetizou a perspectiva da instabilidade fiduciária no campo da política econômica internacional, declarando que a financeirização vertiginosa e indiscriminada das riquezas é a verdadeira culpada pela destruição do planejamento nacional de vários países, dado que extravia os setores internos, inclusive o mercado, no intuito de privilegiar os grandes conglomerados transnacionais com o pretexto da globalização. Também assegura que este é o avatar hodierno da mesma operação civilizatória que abençoou o sistema de livre iniciativa no último século.

Ainda tratando do Século XX e da informação e economia globalizada, o finado professor e ex-ministro Celso Furtado, tido como o maior economista brasileiro, já apresentava dúvidas no que concerne ao otimismo dos epígonos da globalização antes da Sexta República ser instaurada, sobretudo a respeito dos novos elementos tecnológicos. Furtado era cético em relação à metamorfose efetiva dessas parábolas em fatores de bem-estar, ou então que elas pudessem desenvolver o tão sonhado “autocontrole do capitalismo”. Essa desconfiança fundamentou-se, principalmente, no fato de que as tecnologias informáticas tendem a suplantar os demais procedimentos — especialmente quando são fornecidas pelas nações hegemônicas —, até porque sua função primária consiste em regular todos os processos técnicos. Uma falha nos controladores de microcircuitos importados devido a uma sobrecarga ou interrupção de energia paralisa uma rede de bancos com extrema facilidade, assim como o trânsito das grandes cidades ou o tráfego aéreo em uma importante região de um país. Qual a garantia de que o tal lapso acidental não foi um esquema de sabotagem imperialista?

Existe algum reverso nessas questões? Perfeitamente, já que todo o instrumental científico representa o progresso que a humanidade alcançou. Portanto, não há o que santificar ou demonizar; apenas refletir e, sempre que necessário, levantar questionamentos. Se a intenção legítima da globalização é prestar bons serviços aos cidadãos, proporcionando equivalência e acessibilidade, então a informação e a tecnologia precisam de novos parâmetros com urgência. Tais valores não devem ser mantidos como um atavio da depredação materialista do sistema financeiro, que coloca a polarização e o cabedal acima de tudo! Para que uma sociedade justa e funcional sobrevenha e prevaleça, a ética e a busca pelo conhecimento são dois pré-requisitos indispensáveis, pois constituem o âmago oracular de uma nação.

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