A autenticidade do voto nulo e as falácias dos indulgentes

Anular o voto é uma escolha lícita. Política não se resume a escolher candidatos na urna eleitoral

Conforme o tempo avança na dimensão em que o Brasil se encontra, o produto que a realidade social imprime nas minhas perspectivas é uma incredulidade sólida em atos meramente eleitoreiros. Tamanho ceticismo é incrementado justamente em períodos sufragistas, onde a demagogia infesta uma gama de círculos (aparentemente) impolutos. Logo, todo esse artificialismo rotulado como “democracia” evapora instantaneamente quando alguém se posiciona dessa maneira, visto que os fanáticos recorrem à hostilidade para desmerecer aqueles que externam um juízo de valores opostos às crendices deles.

Certamente não sou o único que já escutou o seguinte disparate: “quem anula o voto é obrigado a aceitar tudo o que acontece sem reclamar!”

Sim, afirmei e reitero que essa frase é um hebetismo, pois a coerência é um fator inexistente em suas premissas. Vejamos, se abomino a conduta de uma horda de facínoras intitulados como “governantes”, por quais razões devo conferir legalidade aos estratagemas destes que violam o bem comum?

A partir do momento em que se outorga poderes a uma farândola de vassalos da cleptocracia, a indignação contra a ordem vigente perde o efeito. Não faz o menor sentido exclamar que um projeto de governo é deletério mas aquiescer voluntariamente com o mesmo na seção eleitoral. Pior ainda é direcionar a culpa de uma paradoxo tão mirabolante àqueles que jamais omitiram que não aprovariam essas requisições sob nenhuma hipótese. Ambivalência proposital é sinônimo de má-fé.

Não obstante ao que ressaltei nos parágrafos anteriores, busco compreender os demais indivíduos que estão confusos perante a esse vendaval soturno. É inegável que há uma legião de pessoas aflitas com os distúrbios nacionais e que tal situação colabora para que haja uma escolha pelo “menos ruim”. Todavia, é precisamente essa conjuntura que impede um alto número de cidadãos de selecionar elementos que, independentemente da magnitude, irão prejudicar a sociedade.

Por via de regra, cinquenta e sete municípios brasileiros abriram caminho para que os candidatos mais sórdidos e/ou incompetentes expugnassem o segundo turno desta eleição sindêmica. Diversos foram os casos em que um postulante atuou como difusor da campanha de seu adversário. Marcelo Crivella é um exemplo disso, pois seu afluente de mentiras e indolência administrativa terminarão reconduzindo o entusiasta do superfaturamento de obras públicas, de nome Eduardo Paes, à Gávea Pequena sob a égide de um terceiro mandato como prefeito dos escombros que lastreiam a cidade do Rio de Janeiro.

Em rito imediato à conclusão da primeira fase da disputa pelo Executivo Municipal, os apedeutas fabricados pela modernidade líquida e justapostos nos dois renques do espectro maniqueísta voltaram a se amotinar feito bárbaros nas trincheiras digitais para nos enxovalhar com a alcunha de “isentões”, dado que não fornecemos apoio à títeres protelianos. Inquirições abstratas como “você vai deixar que um comunista/fascista ganhe as eleições” tornam-se frequentes nas artérias do ciberespaço.

Sou contribuinte, trabalhador e membro de instituições sem fins lucrativos que operam na fiscalização dos impostos que eu e milhões de brasileiros desembolsamos e que subvenciona todas as engrenagens dessa gleba monumental. Epígonos de marginais e traidores da Pátria não têm voz ativa para comigo no que tange ao silenciamento por exercício de uma imunidade legal. Política não se traduz em material publicitário de súplicas pelos votos dos desinformados.

Antes de prosseguir, é necessário frisar que o voto nulo é um direito constitucional e irrevogável do brasileiro, que não deve explicações primárias de sua abstenção. Não é impreterível ao próximo que compreenda tal ação, e sim que respeite as prerrogativas que atestam a nossa rejeição às opções intencionalmente disponíveis. Se os famigerados romeiros do conceito plástico de democracia realmente o contemplam, então é absolutamente insano repudiar este princípio. E depois, é uma terrível estupidez (re)conceder autoridade a uma quadrilha de parasitas falaciosos e displicentes. É óbvio que a tônica dos desfalques é variável, mas o erário não se livrará da opugnação em benefício dos plutocratas. Se tantas lacunas são incapazes de perturbar a essência dos sofistas nupérrimos, que eles permaneçam divagando atrás de uma evolução utópica; porém, que não ousem conjurar uma espiral do silêncio no intuito de reprimir quem abdica dessa irreflexão por motivos deontológicos.

Retornando à proposição estúrdia que me instigou a ortografar essas linhas, seria razoável proferir que os indulgentes conservadores das mazelas sociais não deveriam lamentar os arbitramentos políticos em função de terem se prostrado ao capciosismo orquestrado por estes lacaios da financeirização? É uma pergunta que, apesar de insólita, não carrega distorções. Afinal, se confiaram seus votos em protozoários que menosprezam o desenvolvimento do país, isso significa que toleram a imobilidade de um sistema injusto e com todas as suas consequências imensuráveis. Em síntese, não recebem nada além do que defenderam com extrema altivez.

É profundamente desolador se inclinar às tarefas científicas que examinam as atribuições sociopolíticas e constatar que a atmosfera pseudodemocrática do Brasil é tão cáustica e vulnerável que a decisão de indeferir o voto é a única que se conecta à minha integridade. Optar pelo irracionalismo tóxico do “rouba mas faz” é hiperbolicamente menos complexo em uma ótica de refração; entretanto, as partículas da ignorância sempre colidem em obstáculos quase invisíveis e fabricam difrações aberrantes. “Isentão”, sob o prisma das misérias que cisalharam o Brasil, é o pusilânime que desistiu de lutar por soberania e autodeterminação e crê na sandice de que é possível consertar as falhas através de novos erros.

E você, compatriota, já estabeleceu quem irá obter seu voto de confiança amanhã?

Por

piterson.hageland@oestadorj.com.br

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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