A arte nos faróis do Rio de Janeiro

Esperar o farol abrir, é algo comum para os motoristas e uma oportunidade para os chamados artistas de rua mostrem seu talento

Esperar parado enquanto o sinal de trânsito abre é  momento comum para o motorista. Mas são nesses pequenos instantes, que alguns profissionais conhecidos como artistas de rua precisam impressionar a plateia a céu aberto. Sejam eles malabaristas, dançarinos, acrobatas ou artesãos, o objetivo é o mesmo: Conseguir sobreviver a partir da arte que desenvolvem.

O artista circense Hugo Donato, 32, se apresenta nas ruas do bairro do Flamengo, na zona sul do Rio, há seis anos. Ele nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, e desde pequeno ingressou no circo, onde se apresentava com o número de malabares. Aos 22 anos veio para o Rio de Janeiro, em busca de melhores oportunidades de vida. A falta de emprego o levou a se apresentar nas ruas.

A rotina não é fácil, Hugo se acorda às 5h da manhã, organiza os materiais das apresentações e logo após segue seu destino para iniciar seu trabalho. Ele é um dos muitos brasileiros que enxergaram na arte de rua a forma de poder ganhar dinheiro e ajudar a família O artista de rua explica em entrevista sua arte.

O Estado RJ: Como surgiu sua aptidão para os malabares?

Hugo Donato: Desde pequeno sempre vi meu tio que também era artista de circo com as malabares. Me encantei com o universo do circo e desde os seis anos participo de trupes circenses. A primeira foi em Natal, no Rio Grande do Norte. Acabei tendo facilidade com os malabares e sempre gostei mais porque via que a plateia ficava muito contente com os números, ainda mais quando tinha os malabares com chamas.

OERJ: Por que você decidiu trabalhar diariamente nas ruas?

HD: Quando eu vim para o Rio, em 2006, queria melhorar de vida. O grupo de arte que participava em Natal fechou e não conseguia arrumar emprego. Aqui na cidade trabalhei como garçom, fiz bicos de segurança, mas depois acabei não conseguindo mais nada. Tenho um filho pequeno de sete anos pra sustentar. A única chance que eu pensei foi mostrar meu talento de malabares nas ruas, geralmente quando os sinais estão fechados. Não era o que eu esperava, mas era a única alternativa que eu tinha pra não ficar sem ganhar nada.

OERJ:  Como é a sua rotina de trabalho?

HD: Eu me acordo bem cedinho, aí, já ajeito o material da apresentação, os malabares, o material pra poder fazer o fogo, e pego um ônibus. Toda vez que o sinal fica vermelho eu pego meus malabares e começo minha apresentação. Tenho que fazer as contas pra terminar antes de o sinal ficar verde, senão eu não consigo nenhum dinheiro. É um pouco perigoso às vezes quando faço número com fogo. Já me queimei, mas faz parte do trabalho. Tem um amigo que traz a comida pra mim e depois já volto. Às vezes fico até o início da noite.

OERJ: Quais são as dificuldades de trabalhar nas ruas do Rio de Janeiro?

HD: As dificuldades são muitas, tem dia que a gente ganha um pouquinho mais, tem dia que se ganha quase nada. Minha esposa trabalha, mas não dá pra sustentar uma casa e um filho pequeno. Tem muita gente que julga, as vezes olha com um jeito esquisito de dentro do carro. Mas sempre tento chegar na simpatia e fazer meu número da melhor forma possível pra tentar ganhar mais. Nunca cheguei a passar fome, graças a deus, mas dá um nervoso quando chega o final do dia e você vê que o dia não foi tão produtivo.

OERJ: Você sente vontade de voltar para a sua cidade natal?

HD: Vontade eu sinto, minha família mora lá, meu pai e minha mãe, mas minha esposa é daqui e tem o emprego dela. A gente pensa em um dia voltar. Eu vim para o Rio de Janeiro com a esperança que poderia ter mais oportunidades e mesmo com tudo estando difícil, eu tenho fé que as coisas podem melhorar. Uma vez ou outra aparece um trabalho pra fazer e aí, eu consigo um extra. Quero voltar sim pro Rio Grande do Norte, mas quando tiver conseguido meu objetivo.

OERJ:  Qual é o seu maior sonho?

HD: Meu maior sonho na verdade era poder trabalhar em uma grande companhia de circo. Eu sempre vi na televisão, as apresentações dos maiores circos do mundo e sempre achava tudo lindo.  Se eu tivesse condições sairia viajando com minha família pra cada cantinho, desse Brasil com apresentação de teatro, levando alegria para todos e vivendo minha vida através da arte.

Por

Webjornal O Estado RJ > No ar desde 28/05/2007 > Promovemos o Projeto Futuro Jornalista.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e