90 anos de ‘Limite’, clássico cult de Mário Peixoto, eleito o melhor filme brasileiro de todos os tempos

O filme de Mário Peixoto deixou sua marca não apenas na história cinematográfica e cultural do Brasil

Houve a polêmica já um pouco distante de Glauber Rocha (1939-1981) em torno do cinema novo, na década de 1960, quando ele contrapôs ”Ganga Bruta” (1933), de Humberto Mauro (1897-1983), ao filme de Peixoto.

David Bowie (1947-2016) escolheu ‘Limite’ como o único filme brasileiro entre seus dez favoritos da América Latina para a mostra HIGH LINE FESTIVAL, em 2007. Neste mesmo ano, a versão restaurada de Limite foi exibida no festival de Cannes e fez parte dos filmes selecionados para a World Cinema Foundation, fundada por Martin Scorsese e que tem como objetivo a preservação, restauração e exibição de produções históricas, sobretudo da África, América Latina, Ásia e Europa central. 

Mario Peixoto

O filme foi restaurado pela Cinemateca Brasileira e a nova versão foi apresentada em novembro de 2011 no Auditório Ibirapuera em São Paulo, na ocasião com uma nova trilha sonora, composta pelo norueguês Bugge Wesseltoft. O músico veio ao Brasil para apresentar ao vivo, junto do também norueguês Ola Kvernberg (violino) e dos brasileiros Rodolfo Stroeter (baixo), Naná Vasconcelos (percussão) e Marlui Miranda (flauta e voz), o acompanhamento sonoro de Limite. Um trecho de uma mesma apresentação, realizada em Oslo, pode ser visto no youtube.

No final de 2013, a Cinemateca lançou a edição em DVD de ‘Limite’, incluído no segundo número da Revista da Cinemateca Brasileira. A Criterion Collection também lançou o filme em DVD/Blue-Ray. Para tratar de empréstimos da película e questões jurídicas, por favor contatar o Centro Técnico Audiovisual – CTAv/SAV/MinC.

‘Limite’, filmado em 1930 e exibido pela primeira vez em 1931, dirigido e escrito por Mário Peixoto (1908-1992), tornado, ao longo dos anos, um filme cult lendário. Foi votado várias vezes como o melhor filme brasileiro já realizado e pode ser considerado a primeira e única referência para filmes brasileiros experimentais (apesar da problemática do termo) do cinema mudo. ‘Limite’ pode ser visto no limite histórico entre o cinema mudo e o falado, um filme com uma certa ambição de resumir muitas das possibilidades estéticas e técnicas desenvolvidas nos anos 10 e 20. Partindo de um ponto de vista retrospectivo, pode-se, entre outros, ressaltar a repetição de tomadas ou os close-ups de detalhes como em Man Ray, a mesma partitura de música de ‘Satie’ em Limite como em ”Les Mystères du Château des Dés” (1928), de Man Ray (1980-1976), a estruturação rítmica como, por exemplo, em ”O Homem com a Câmera” (1929), de Dziga Vertov (1896-1954), ou ‘‘Berlim – A Sinfonia da Metropole” (1927), de Walter Ruttmann (1887-1941), apesar de uma qualidade e velocidade diferentes, bem como o uso restrito de intertítulos como em ”A Última Gargalhada” (1924), de F. W. Murnau (1888-1931).

Intro de Limite

‘Limite’ pode ser visto como um esforço para explorar as possibilidades visuais, as técnicas experimentais e as variações rítmicas do medium fílmico no contexto de uma afirmação às vezes melancólica, outras um tanto agressiva sobre a limitação e a futilidade da existência humana. E, finalmente, temos que mencionar as limitações técnicas de um filme realizado sem a estrutura de um backup profissional, um empreendimento solitário, financiado pelo próprio Mário (na época com minha idade, 22 anos). A primeira exibição do filme aconteceu em 17 de maio de 1931 no Cinema Capitólio no Rio de Janeiro, uma sessão organizada pelo Chaplin Club, que anunciou Limite como o primeiro filme brasileiro de “cinema puro”.

Obteve reações favoráveis dos críticos, que o viram como uma primeira produção brasileira de vanguarda, mas nunca entrou em circuitos comerciais. Ao longo dos anos, foi exibido apenas esporadicamente, como em 1942, quando uma sessão especial foi organizada para Orson Wells (1915-1985), que estava na América do Sul para a filmagem de seu filme inacabado ”It’s all true”, e para Maria Falconetti (1892-1946), atriz principal de ”La Passion de Jeanne d’Arc” (1928), de Theodor Dreyer (1889-1968).

Devido a vários fatores, ‘Limite’, conhecido também como a “obra prima desconhecida” – uma expressão de Georges Sadoul (1904-1967) que, em 1960, fez uma viagem mal sucedida para o Rio de Janeiro para assistir ao filme – e também o seu diretor se tornaram lendários. Logo após a primeira exibição no Rio, Limite foi mostrado em muitas ocasiões na Europa: tanto em Paris, bem como no cinema Marble Arch em Londres, onde supostamente atraiu o interesse de Sergei Eisenstein (1898-1948) um dos mais importantes cineastas soviéticos. e filmólogo, seguido por um artigo escrito por ele, intitulado ”Um Filme da América do Sul”. Diz-se que este foi publicado em 1931 no ‘The Tatler Magazin’. Esse artigo é frequentemente citado como prova para o reconhecimento e reputação internacional de ‘Limite’, como no programa da Berliner Filmfestspiele (Festival Internacional de Cinema de Berlim) em 1981 ou recentemente em 2004, quando ”Onde a terra acaba”, o documentário sobre Mário Peixoto, foi apresentado em diversos cinemas europeus.

Cenas de Limite

Nos anos 40 e 50, o próprio Mário mencionou com reiteradamente o texto de Eisenstein, mas nunca apresentou o artigo propriamente dito. Quando tentava financiamento para um de seus projetos – um filme chamado ”A alma segundo Salustre”, em 1964 – Plinio Süssekind, um amigo, lhe disse que o artigo seria muito útil para levantar fundos. Duas semanas depois, Mário apresentou um texto escrito à mão em português, que então foi publicado em 1965 por Carlos Diegues na sua coluna de cinema da revista brasileira Arquitetura, vol. 38. O próprio Mário disse primeiro que ele tinha traduzido o texto de uma versão francesa do artigo original em inglês e mais tarde afirmou que Edgar Brasil (1902-1954) o havia traduzido do alemão para o português. Porém, de acordo com Saulo Pereira de Mello (1933 -2020), finalmente admitiu que ele mesmo o havia escrito. O artigo foi então republicado por Mello (2000) como um texto do próprio Mário Peixoto.

Um segundo item a ser mencionado é a história de ”Limite” como obra-prima desconhecida. Em 1959, o filme de nitrato começou a se deteriorar, e Plinio Süssekind e Saulo Pereira de Mello iniciaram um longo trabalho de restauração. Sem experiência técnica prévia, usaram procedimentos adquiridos em livros especializados. ”Limite” apenas retornou aos festivais e exibições em 1978. Apesar do fato de que ninguém pôde ver o filme entre 1959 e 1978 – como no caso de Georges Sadoul e sua mal sucedida viagem ao Rio de Janeiro em 1960 – ”Limite” ainda serviu como referência para discussões e declarações controversas, enquanto outros até duvidavam de que o filme realmente existia.

* Texto original do Mário Peixoto, site da UFRGS dedicado ao cineasta e autor Mário Peixoto, adaptado por Vanderlei Tenório para o OERJ.

Referências bibliográficas:
Farias, Otavio. Eu creio na imagem. In: O fan, vol. 6. Rio de Janeiro, 1929.
Mello, Saulo Pereira de. Mário Peixoto – Escritos sobre cinema. Rio de Janeiro: aeroplano, 2000.
Peixoto, Mário. Limite. “scenario” original. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.
Rocha, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2000.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

Jornalista, comentarista de cinema, correspondente no Brasil para alguns veículos portugueses e bacharelando em Geografia pela Universidade Federal de Alagoas.

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